Sob o dossel cerrado de carvalhos centenários, cujas copas entrelaçadas bloqueavam a luz como mãos antigas em prece silenciosa, o vilarejo permanecia encolhido. Suas muralhas de pedra cinzenta, erguidas mais por hábito do que por defesa, suavam umidade, musgo e abandono. A névoa daquela manhã não trazia o frescor do orvalho, mas o odor rançoso de casas trancadas há tempo demais, madeira apodrecendo por dentro, tecidos esquecidos em berços que já não rangiam ao embalo de mães cansadas.
Havia naquele lugar uma sensação persistente de aperto, como se o espaço tivesse aprendido a se retrair ao longo dos anos para suportar o que não conseguia enfrentar. Aquelas pedras não pareciam apenas proteger; pareciam conter um medo antigo, como se o vilarejo tivesse aprendido a se encolher para sobreviver.
Ali, o tempo não era medido por sinos nem ampulhetas. Era contado em ciclos. Vinte e um dias. Sempre vinte e um. Um relógio invisível que ninguém via, mas todos sentiam. A cada volta completa, quatro crianças desapareciam, não raptadas, não vistas partindo, mas simplesmente arrancadas da realidade, como se nunca tivessem pertencido àquele mundo. Vinte e oito já haviam sido levadas. Vinte e oito nomes sussurrados, riscados da memória coletiva por pura sobrevivência emocional. O vilarejo, exaurido, não esperava mais por milagres. Apenas pelo próximo fim.
O número não precisava ser explicado. Ele se impunha sozinho, repetido em silêncio até se tornar parte do modo como todos respiravam. Ele vivia na boca das pessoas como veneno: não era dito por coragem, mas por exaustão, e, ainda assim, ninguém conseguia esquecer.
A taverna, um estabelecimento de vigas grossas e paredes manchadas de fuligem, era o único lugar onde ainda se reuniam. Não por alegria, mas por necessidade. Lá dentro, o ar era denso, quase mastigável, uma mistura de fumaça de cachimbo, cerveja azeda e desespero destilado lentamente ao longo de semanas. Homens e mulheres sentavam-se em silêncio, os ombros curvados, os olhos fundos, como se cada um carregasse um luto particular que não ousava dividir.
Foi ali que o destino começou a se desenrolar.
E, mesmo sem perceber, cada um carregava consigo uma rachadura pessoal pronta para se encontrar com a rachadura do vilarejo.
Sir Lunch A Lot era um halfling de baixa estatura e corpo leve, roupas coloridas demais para um lugar que cheirava a desespero. O chapéu torto e o jeito de ocupar espaço como se o mundo fosse palco denunciavam um bardo acostumado a transformar silêncio em espetáculo, mesmo quando o sorriso não vinha.
Sir Lunch A Lot, o Dez Afinado, despertou sobre a mesa áspera como quem emergia de um afogamento lento. Sua cabeça latejava, o mundo girava em tons amarelados e, por um instante, ele não soube distinguir onde terminava o sonho e onde começava a vigília. No delírio, estivera em uma cidade impossível: casas habitadas, mas sem portas nem janelas, erguidas como carcaças incompletas. Ele caminhava entre elas sentindo um incômodo profundo, uma certeza de que algo essencial faltava, não às construções, mas ao próprio mundo.
Então vira as pegadas.
Antigas, marcadas no chão como brasas apagadas, movendo-se sozinhas, cintilando com um brilho espectral. Elas o guiavam para o centro da cidade. E quanto mais avançava, mais uma sombra se condensava diante dele, crescendo, tomando forma, roubando o ar. Foi nesse instante que acordou.
O despertar não trouxe alívio imediato, apenas a certeza desconfortável de que aquele dia não permitiria que ele se escondesse atrás de músicas.
Ao baixar os olhos, encontrou algo que não rimava com sua vida boêmia, nem com nenhuma canção que conhecia.
Uma criança.
Por um instante, o charme habitual não serviu de nada. A criança não pedia aplausos, pedia chão firme, e a mão dele era a única coisa que ela segurava.
Pequena, leve demais para sua idade indefinida, os olhos abertos e vazios, como espelhos sem reflexo. Ela segurava sua mão com força surpreendente, dedos frios, desesperados, como se ele fosse sua única âncora em um mar de pesadelos. Não falava. Não chorava. Apenas respirava, curta e irregularmente, como quem não tinha certeza se ainda pertencia ao próprio corpo.
O burburinho cessou.
Olhares se voltaram. Alguns curiosos, outros temerosos. O taverneiro foi o primeiro a reagir, não com compaixão, mas com pânico supersticioso. Murmurou palavras sobre azar, sobre chamar atenção da guarda, sobre não querer problemas. Em poucos instantes, o bardo foi empurrado para fora, sob protestos abafados e o ranger da porta se fechando atrás dele como uma sentença.
Do lado de fora, o frio o recebeu sem piedade.
Na praça central, sob um céu plúmbeo que parecia prestes a desabar sobre todos, Sir Lunch A Lot cambaleava, carregando um fardo que nenhuma melodia poderia suavizar. Foi ali que cruzou o caminho de Dorne, o Gentil.
Dorne era baixo e largo como uma muralha anã, barba espessa descendo sobre o peito protegido por uma armadura simples, porém resistente. O olhar, cansado demais para sua idade, era o de quem já aprendeu a medir o mundo pelo que ele tira, e não pelo que promete. Dorne parecia carregar o peso de muitas despedidas no olhar, como quem aprendeu cedo demais que a dor sempre encontra caminho.
O anão clérigo aproximou-se guiado por seus próprios presságios, visões fragmentadas, sonhos inquietos, sinais que sua fé ainda insistia em interpretar.
Dorne odiava admitir, mas reconhecia esse tipo de chamado: quando a miséria se acumula, ela atrai testemunhas, e ele nunca conseguia fingir que não viu.
Ao tentar examinar a criança, suas mãos grossas e calejadas traíram a intenção. Os dedos prenderam-se nos cabelos da pequena, e o puxão abrupto arrancou dela um grito estridente. Um som agudo, desesperado, que rasgou o véu de apatia do vilarejo. Portas se entreabriram. Rostos surgiram nas janelas. E os guardas vieram, atraídos como corvos por carne exposta.
A multidão observava em silêncio enquanto os dois eram levados. Não houve acusações diretas, nem defesas. Apenas o julgamento mudo de quem já não acreditava em inocência.
No acampamento militar, a verdade caiu como um martelo: a criança era uma das desaparecidas. Uma das vinte e oito. Um fantasma que retornara do vazio. O capitão, com olhos atentos demais e sorriso contido, não demonstrou surpresa, apenas oportunidade. As explicações foram ouvidas com desinteresse calculado. Ao final, cinco moedas de ouro foram exigidas de cada um. Um preço pela liberdade. Um preço para que o problema deixasse de ser deles.
A criança ficou para trás.
Nas mãos frias da milícia.
Khor, o Adamante, era um homem alto e de porte sólido, moldado por anos de infantaria pesada. A postura era disciplinada, o olhar firme, daqueles que se colocam à frente do perigo por hábito antes mesmo de escolher fazê-lo.
Na mesma manhã, a meio dia de caminhada dali, Khor, o Adamante, despertou de um sonho que não lhe pertencia. Não fora um delírio comum, nem um eco do subconsciente. Aquilo lhe fora imposto. Ele sabia. Sentia-o nos ossos.
No sonho, estava diante de uma porta de madeira clara. Pregada nela, uma lista. Nomes. Muitos nomes. Ele passou a mão sobre o papel, leu cada um com atenção ritualística. Seu nome não estava ali. Mas ao terminar a leitura, a porta se abriu.
Do outro lado, sombras. Crianças. Muitas. Em silêncio absoluto. Paradas. Hipnotizadas. Uma delas se moveu. Ergueu o rosto e falou, com uma voz que não combinava com seu corpo:
— Você não devia estar aqui.
A porta se fechou. E Khor soube que algo havia acontecido. Algo terrível. E que, embora não fosse culpa sua, ele carregaria o peso daquilo.
O sonho deixara um peso que não se dissipava com o despertar, como se a realidade tivesse apenas assumido outra forma do mesmo fardo.
Ao despertar, Khor vestiu a armadura em silêncio. Não havia chamado, não havia guerra, não havia inimigos visíveis. Ainda assim, algo o pressionava por dentro, a velha sensação de inutilidade em tempos de paz incerta.
Foi por isso que se dirigiu ao acampamento da guarda.
Estandartes úmidos pendiam sem orgulho, e os soldados ocupavam-se mais em matar o tempo do que em vigiar. Khor pediu para falar com o comandante. Quando esteve diante do capitão, não exigiu explicações nem fez acusações. Ofereceu-se. Disse que buscava servir, que braços treinados e fé não existiam apenas para campos de batalha.
O capitão ouviu com atenção calculada. Seus olhos demoraram-se na armadura, depois desviaram-se para trás, para onde um pequeno vulto permanecia sentado, imóvel, sob vigilância distraída.
Então, como quem se livra de um fardo incômodo, o capitão apresentou a solução.
Falou de uma criança encontrada nesta manhã. Disse que pertencia à lista dos desaparecidos. Que a guarda não tinha recursos, nem interesse, para cuidar dela. Havia pais a meio dia de caminhada dali. Alguém precisava levá-la.
Foi assim que Khor viu a criança pela primeira vez.
Ela lhe lembrou, sem rosto e sem nome, de tudo que ele não conseguiu salvar. E isso bastou para que seu juramento ganhasse dentes.
Pequena demais. Silenciosa demais. Os olhos abertos, vazios, como se observassem um mundo que não respondia.
Quando tomou a criança nos braços, o dom sagrado despertou como um rugido contido. O Sentido Divino não veio como visão, mas como náusea espiritual. Um pulsar rítmico, antinatural, algo que vibrava sob a pele da menina como um coração que não batia no tempo certo. Havia ali uma presença. Não ativa. Não manifesta. Mas marcada.
A sensação fez o estômago de Khor se revirar. Aquilo não era apenas impureza espiritual comum, nem o eco distante de um mal antigo. Era algo aderido, como uma marca que ainda pulsava. Foi então que lhe ocorreu a única ação que parecia razoável: levar a criança à capela do vilarejo. Se ainda restasse ali algum resquício de luz, algum símbolo que pudesse reagir àquilo, ele precisava saber.
Ao aceitar aquela tarefa, apresentada como dever, mas claramente um descarte, Khor sentiu a confirmação silenciosa de que acabara de se tornar parte de algo muito maior do que o vilarejo, a guarda ou aquela missão improvisada.
Na capela, um prédio abandonado mais pela fé do que pelo tempo, o ar era pesado, estagnado. Uma mulher de olhos famintos aproximou-se, gestos nervosos, exigindo que a criança fosse deixada ali. Havia urgência demais em sua voz. Vontade demais. Khor recusou. Não deixaria ninguém para trás. Não outra vez. As portas rangeram.
A figura que surgiu na entrada era grande mesmo para os padrões orcs: ombros largos, músculos tensos sob a pele esverdeada marcada por cicatrizes antigas. Havia nele uma prontidão inquieta, como se a violência fosse menos impulso e mais mecanismo de sobrevivência.
Matrox entrou como uma tempestade contida. Seus olhos estavam arregalados, o corpo tenso. Em sua mente, números ecoavam sem cessar, aumentando, diminuindo, uma contagem invisível que o corroía por dentro. Ao se aproximar da criança, os números despencaram, silenciaram. O alívio foi tão abrupto que se transformou em fúria quando percebeu o risco de perdê-la.
A tensão que o acompanhava parecia ocupar o espaço antes mesmo de qualquer gesto, um aviso silencioso de que violência e controle caminhavam lado a lado.
Matrox avançou primeiro com as mãos. Seus passos foram rápidos, instintivos, guiados pelo silêncio súbito em sua mente. Ele estendeu os braços na direção da criança, os dedos quase tocando o tecido que a envolvia, movido não por crueldade, mas por um desespero bruto e incontrolável.
Khor reagiu no mesmo instante. Girou o corpo e ergueu o escudo, colocando-se entre o orc e a criança como uma muralha viva. O gesto foi firme, protetor, e suficiente para romper o frágil equilíbrio daquele momento.
O silêncio na mente de Matrox se despedaçou.
As vozes retornaram. Os números explodiram em sua consciência. Em um acesso de fúria, ele puxou o machado e atacou. O golpe buscou o flanco de Khor com força suficiente para quebrar ossos, mas ricocheteou contra o escudo do Adamante com um estrondo que sacudiu a capela, fazendo poeira e fragmentos de madeira caírem das vigas antigas.
O paladino não recuou. Firmou os pés no chão gasto, absorvendo o impacto como quem segura uma porta contra a tempestade.
Antes que o confronto pudesse escalar, uma voz cortou o ar. A mulher avançou entre eles, o rosto tenso, os olhos arregalados, ordenando que parassem. Exigiu que saíssem dali, que não manchassem o que restava daquele lugar com violência e sangue.
O conflito cessou tão abruptamente quanto começara, interrompido não pela vitória de um sobre o outro, mas pelo medo, pela autoridade improvisada e pelo peso do espaço sagrado.
Separaram-se.
Mas a ligação estava feita.
Khor retornou ao acampamento improvisado fora das muralhas levando a criança consigo. O peso em seus braços não era apenas físico; havia uma urgência silenciosa em seus passos, a certeza de que aquela tarefa simples demais escondia algo que não poderia ser enfrentado sozinho.
Matrox, por sua vez, afastou-se sem dizer uma palavra. A interrupção na capela deixara um vazio em sua mente, os números haviam cessado, mas o silêncio era incômodo. Ele seguiu em direção à taverna, guiado por um hábito antigo e pela necessidade de afogar pensamentos que não compreendia.
No Acampamento da Guarda, entre soldados e vozes baixas, um aviso pregado na madeira chamou a atenção de Khor naquela noite. A recompensa oferecida pela guarda pela devolução da criança a seus pais, em Jarven, era alta demais para um simples favor. Ouro suficiente para atrair mercenários, aventureiros e desesperados. Ouro suficiente para indicar que a missão era mais perigosa do que aparentava.
Khor compreendeu, então, o óbvio: não poderia cumprir aquilo sozinho.
Ele empurrou a porta da taverna e entrou. O ambiente silenciou apenas o suficiente para notar sua presença. Sem rodeios, anunciou a missão, escoltar uma criança até Jarven, atravessar estradas incertas, lidar com o que quer que estivesse por trás daquele retorno impossível. Não falou de demônios, nem de marcas. Falou de ouro.
Três figuras responderam.
Sir Lunch A Lot levantou o olhar primeiro, a criança ainda gravada em sua memória como uma nota dissonante que pedia resolução. Dorne, o Gentil, assentiu em silêncio, interpretando o convite como resposta às visões que o perseguiam. E Matrox, já meio afogado em bebida, ouviu o valor da recompensa e sentiu um calafrio, não de ganância, mas de reconhecimento. Algo naquele chamado encaixava-se demais no vazio recém-formado em sua mente.
O acordo foi feito sem brindes. À noite, sob as sombras das muralhas, o grupo observava a criança em silêncio. Ela respirava. Nada mais.
Nenhum deles confiava plenamente nos outros, mas todos sabiam reconhecer quando o medo os colocava na mesma estrada.
Era a prova viva de que o ciclo dos vinte e um dias não era apenas sobre sumiços, mas sobre transformações. Seu retorno não era um milagre.
Era uma rachadura.
Os números não martelavam mais na mente de Matrox.
Mas todos sabiam. A contagem não havia terminado.