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Capítulo 3

A Biblioteca e a Luz

Nil Thalanor caminhava pelos corredores da biblioteca como quem percorre um território sagrado. As estantes altas, antigas, exalavam o cheiro de pó, couro velho e tinta ressecada pelo tempo. A luz ali dentro era contida, filtrada por janelas estreitas e altas, e o silêncio era tão profundo que cada passo parecia um desrespeito.

A biblioteca não lhe oferecia conforto, mas foco. Era o tipo de lugar onde o mundo exterior perdia força e apenas o conhecimento permanecia pesado o suficiente para ser levado a sério.

Nil era um alto elfo de traços finos e postura contida, os movimentos precisos denunciando anos de disciplina arcana. O olhar atento percorria o ambiente como quem não apenas lê livros, mas escuta o que eles preferem esconder.

Foi então que ele percebeu. Uma luz.

Aquela luz não se impunha, insinuava-se. Como se soubesse que chamar atenção demais seria suficiente para afastar quem não estivesse preparado.

Não vinha de janelas, nem de lamparinas. Era um brilho frio, azulado, pulsante, escapando de uma prateleira como um fôlego contido. Nil franziu o cenho, sentindo um arrepio que não vinha do ambiente, mas de dentro. Aproximou-se devagar, como se o próprio chão pudesse reagir ao seu movimento. Estendeu a mão, os dedos longos e finos tremendo levemente, e tocou o livro de onde a luz emanava.

Havia naquele gesto uma mistura perigosa de curiosidade e necessidade, o mesmo impulso que sempre o colocava um passo além do limite seguro.

O mundo se partiu. Ele não caiu. Não foi puxado. Apenas… deixou de estar ali.

Nil se viu em um lugar que parecia a ruína de um calabouço. As paredes eram de pedra antiga, rachadas, cobertas de musgo e marcas de algo que havia arranhado a rocha com desespero. O ar era pesado, úmido, e carregava o cheiro de mofo e abandono.

Então ele ouviu a voz.
— Nil…

Ouvir o próprio nome ali provocou um choque físico. Não era apenas surpresa, era a sensação desconfortável de ser reconhecido por algo que não deveria conhecê-lo.

Vinha do seu lado direito. Ele virou o rosto e viu a criança. Ela tinha entre oito e dez anos, magra demais, pálida demais. Os olhos estavam abertos, atentos, assustados. Estava acordada. Muito acordada.
— Nil… — ela repetiu.

Ouvir o próprio nome ali provocou um choque físico. Não era apenas surpresa, era a sensação desconfortável de ser reconhecido por algo que não deveria conhecê-lo.

Ela começou a se afastar lentamente, mas não parava de chamá-lo.
— Nil… Nil…

Ouvir o próprio nome ali provocou um choque físico. Não era apenas surpresa, era a sensação desconfortável de ser reconhecido por algo que não deveria conhecê-lo.

Nil piscou. O rosto da criança mudou. Ele piscou de novo. Mudou outra vez. Uma terceira vez.
Cada piscada trazia um rosto diferente, mas a voz era a mesma. O chamado era o mesmo. O medo era o mesmo.

Nil sentiu o coração acelerar.
— Quem é você? — perguntou, a voz ecoando estranho naquele lugar.

A criança inclinou a cabeça.
— Você esqueceu???

A pergunta não soou como acusação, mas como constatação. E isso a tornou mais perturbadora.

Nil deu um passo à frente, confuso.
— Eu… eu não te conheço. Não consigo reconhecer você.

A criança o encarou por um instante longo demais. Então levou as mãos aos lábios, como quem guarda um segredo impossível de ser dito… e desapareceu.

O Prisma

Nil voltou a si com um sobressalto, ainda na biblioteca. O livro estava aberto diante dele. E dentro dele havia algo que não estava ali antes.

Um prisma. Do tamanho de um copo, perfeitamente lapidado, brilhando em um azul profundo e belo demais para ser natural. Parecia ter nascido de dentro do próprio livro.

Objetos assim raramente surgiam por acaso. Existiam porque alguém, em algum momento, precisara que fossem encontrados. Aquilo despertou nele uma memória que não conseguia alcançar por completo, como um sonho antigo que se recusa a tomar forma ao acordar.

Nil o observou com cuidado. Pela forma como a luz se dobrava em suas faces, pela sensação que emanava, ele sabia: aquilo era antigo. Muito antigo. Um artefato carregado de magia poderosa. Tinha a estranha certeza de já tê-lo visto antes, talvez em algum livro, alguma gravura… mas a memória escapava.

Ele estendeu a mão. Assim que tocou o prisma, o mundo começou a distorcer. As estantes se curvaram, o chão pareceu girar. Nil sentiu náusea, o estômago se revirando, a visão se fragmentando. Então tudo apagou. Nil acordou caído no chão.

Por um instante, pensou estar novamente preso a alguma consequência de seu próprio estudo, um preço que já aprendera a pagar em silêncio.

Pedra fria sob o corpo. O cheiro de ratos, aranhas e sujeira antiga. Argolas de ferro cravadas nas paredes, correntes pendendo, feitas para prender pessoas… ou algo pior. Era um porão. Um porão esquecido, com apenas uma saída: uma escada estreita subindo para a luz. Com esforço, Nil se levantou e subiu. Ao empurrar a tampa, viu os fundos de uma casa grande. De pedra, telhado de madeira, sem luxo algum. Não havia ninguém por perto.

Ele contornou a casa, analisando janelas, paredes, procurando entender onde estava. Entrou. Dentro, um casal de idosos se sobressaltou.
— Quem é você que entra na minha casa? — perguntou o homem, ríspido.

Nil ergueu as mãos.
— Desculpe. Estou perdido. Pode me dizer onde estou?

O velho estreitou os olhos.
— Você está na Lagoa das Névoas. Como não sabe onde está? Caiu dos céus?
— Eu… cochilei. Não sei o que aconteceu. Acordei aqui.
— Vá embora — respondeu o homem, seco. — Siga a trilha e vá em direção à cidade. Suma da minha casa.

Nil obedeceu. Do alto, ele viu a lagoa envolta por névoa e, adiante, um pequeno vilarejo.

Recanto Seguro

Ao chegar ao vilarejo, Nil viu primeiro uma ferraria à direita, com um ferreiro de porte enorme martelando o metal. À esquerda, um curral com alguns animais. A vila se dividia em dois caminhos.

Ele seguiu até uma estalagem com uma placa: Estalagem Recanto Seguro. Nil riu, em deboche. Não parecia nada segura. Entrou.

Era simples: duas mesas, balcão, paredes de madeira crua, uma escada à esquerda levando a quatro quartos. Atrás do balcão, uma jovem de cerca de quinze anos, bonita, o atendeu.
— Senhor viajante, temos quartos disponíveis.
— Qual o valor?
— Uma pechincha. Apenas uma moeda de ouro por noite.
— E seu nome?
— Rose.

Nil pagou.
— Rose, lhe pago uma moeda a mais se me contar o que tem acontecido no vilarejo.

Ela sorriu, guardou uma moeda na gaveta e a outra consigo.
— Um viajante esperto e generoso. Nos últimos meses, crianças têm desaparecido. Só desta vila, quatro.
— Há alguma investigação?
— Nada. Meses se passam e ninguém descobre nada. Só a dor dos pais.

Nil assentiu.
— Que pena. Vou para meu quarto.
— Última porta lá em cima.

O quarto era simples. Palha para dormir, um pequeno móvel, candelabro, pedra de fogo e uma janela voltada para o bosque. Ao olhar para fora, sua visão élfica captou movimento. Goblins. Muitos. Duas hordas, entre seis e dez em cada, correndo para dentro da mata. Um deles era maior, rabugento.

Nil voltou ao balcão.
— Qual seu nome, senhor?
— Nil.
— Em que posso ajudar, Sr. Nil?

Ele perguntou sobre defesas, invasões, o prefeito.
— Ele está na capela — respondeu Rose.

Nil atravessou a pequena praça com passos controlados, mas o corpo denunciava tensão. A capela erguia-se no centro do vilarejo como uma promessa antiga: pedras bem assentadas, telhado íntegro, janelas estreitas por onde escapava a luz vacilante das velas. Era limpa demais para um lugar onde tantas respostas faltavam.

Ao empurrar a porta, o ranger ecoou pelo interior silencioso. O cheiro de cera queimada e incenso antigo pairava no ar. Duas, talvez três pessoas ajoelhavam-se em bancos de madeira, murmurando preces quase inaudíveis. No fundo, próximo ao altar simples, um sacerdote de vestes claras organizava objetos litúrgicos com movimentos calmos, treinados pelo hábito.

Nil aproximou-se sem anunciar a presença. Esperou. Observou. Só falou quando teve certeza de que sua voz quebraria aquele silêncio de propósito.
— A que devo a visita do nobre viajante? — perguntou o sacerdote, sem virar o rosto. — Um rosto que nunca vi por aqui.
— Sou um viajante — respondeu Nil. — Nil Thalanor. Estou hospedado na estalagem Recanto Seguro. Vim porque vi algo que não pode ser ignorado.

O sacerdote virou-se lentamente. Seus olhos eram atentos, mas carregavam um cansaço antigo.
— Fale baixo — disse. — Este é um lugar de paz.
— Goblins — Nil disse, sem rodeios. — Vi grupos entrando no bosque. Não um ou dois. Muitos.

O sacerdote suspirou, como quem já ouvira aquela história antes.
— Você está enganado. Não há goblins aqui.
— Tenho plena certeza do que vi.
— Ora — respondeu o homem, abrindo um leve sorriso controlado. — Sou Orven, sacerdote desta capela há mais de oito anos. Este vilarejo existe há quase um século. Nunca sofremos um ataque. As pessoas aqui morrem apenas de causas naturais.

Nil sentiu a frustração crescer, mas manteve a voz firme.
— Então venha comigo. Apenas alguns minutos. Veremos pegadas, galhos quebrados. Goblins não deixam rastros como cervos.

Orven balançou a cabeça.
— São cervos. Sempre foram. E mesmo que não fossem, não temos guerreiros aqui. Nunca precisamos.
— Nenhum plano de defesa? — insistiu Nil.
— O homem mais forte do vilarejo é o ferreiro — respondeu o sacerdote, encerrando o assunto. — E isso sempre foi suficiente.

Nil percebeu que não arrancaria mais nada dali. Fez uma breve inclinação de cabeça, mais por educação do que por respeito, e saiu da capela com a certeza incômoda de que aquela negação custaria caro.

O Vento Antes da Estrada

Khor ainda permanecia na taverna, sentado à mesa marcada por entalhes antigos e manchas que nenhuma limpeza conseguira apagar. A aliança recém-firmada ainda parecia frágil, como ferro aquecido que não fora totalmente temperado. O burburinho do lugar diminuía à medida que o dia se inclinava para o fim, e a luz alaranjada do entardecer infiltrava-se pelas frestas das janelas tortas.

Era tardinha. O momento em que o dia já não promete nada e a noite ainda não revelou seus perigos. Combinaram ali mesmo: encontrariam-se no centro do vilarejo em vinte minutos. Tempo suficiente para recolher equipamentos, ajustar correias, preparar o que fosse possível para a viagem que se aproximava.

Quando Khor chegou ao ponto combinado, o vento soprava constante, carregando poeira e o cheiro seco da estrada. O vilarejo de Vento Forte fazia jus ao nome, as construções rangendo baixinho sob as rajadas persistentes. Dorne e Matrox já estavam lá. Mas alguém faltava. Khor percorreu a pequena praça com o olhar, procurando em vão.
— Seu amigo não apareceu — disse, por fim, voltando-se para Dorne.

O anão suspirou, sem surpresa alguma.
— Bebeu — respondeu, ajeitando o martelo no ombro. — Bebeu… e não apareceu.

Khor nada disse. Apenas assentiu, como quem já aprendera que algumas ausências eram tão previsíveis quanto o cair da noite. Decidiram então não perder mais tempo. Seguir a pé até Jarvan custaria horas demais, e cada minuto parecia agora mais precioso do que deveria ser. Optaram pela carruagem. O carroceiro aguardava próximo à estrada principal, enrolado em um manto gasto, observando-os com olhos atentos demais para alguém que apenas conduzia animais. Ao ouvir o destino, fez o cálculo rápido.
— Cinco moedas de ouro por pessoa.

Khor franziu o cenho.
— Pago a minha — disse — mas não a da garota.

O carroceiro nem pestanejou.
— Ela ocupa espaço. Respira igual aos outros. Cinco moedas.

O acordo foi selado: duas moedas pagas na partida, três na chegada a Jarvan. Sem alternativa, Khor puxou a bolsa e pagou quatro moedas. O peso da decisão caiu sobre ele como mais uma responsabilidade que não pedira. O homem então voltou o olhar para Matrox, avaliando seu tamanho, sua largura, a forma como o chão parecia mais firme sob seus passos.
— Para ele… dez moedas.

O ar mudou. Khor deu um passo à frente, a voz baixa, controlada, mas firme como aço embainhado.
— Não faça isso.

O carroceiro olhou novamente para o orc. Matrox não se moveu. Apenas sustentou o olhar, imóvel, como uma ameaça que não precisava ser anunciada.
— Cinco, então — murmurou o homem, desistindo da ideia.

Quando a carruagem finalmente se pôs em movimento, rangendo sob o peso combinado de ferro, carne e silêncio, o vilarejo ficou para trás, engolido pelo vento e pela poeira.

A estrada se abriu à frente. E com ela, o presságio de que aquela viagem, prometida em três horas, carregava muito mais do que distância. Jarvan os aguardava.

A Carruagem

Ao cruzar novamente a praça, seus olhos foram atraídos por uma carruagem parada à frente da capela. Uma placa simples anunciava: Carruagem diariamente — destino: Jarvan.

O carroceiro, um homem magro de barba rala, apoiava-se na lateral do veículo.
— Diga, meu nobre viajante?
— Com que frequência vocês partem?
— Duas, três vezes ao dia. Depende do movimento — respondeu, estreitando os olhos. — Mas me diga… como chegou à vila sem passar por mim?
— Vim com meu mentor — improvisou Nil. — Dormi. Não lembro do caminho.

O homem deu de ombros.
— Quer ir para Jarvan? Se sairmos agora, chegamos ainda à noite.

Nil pensou nos goblins, na passividade do vilarejo, no que poderia acontecer se ficasse.
— Sim.
— Cinco moedas — disse o carroceiro. — Duas agora, três na chegada.

Nil entregou as moedas e subiu. Dentro da carruagem havia três passageiros: um velho dormindo profundamente e duas mulheres bem vestidas, carregando caixotes. O cheiro era forte, doce demais.
— Boa noite — disse Nil.
— Boa noite — responderam elas, com risadinhas contidas.

A carruagem partiu. Durante o trajeto, uma das mulheres inclinou-se em sua direção.
— Teria interesse em comprar um de nossos produtos? Um homem bonito merece um bom perfume.
— Não tenho interesse — respondeu Nil, educado.
— É afrodisíaco — insistiu a outra. — O aroma é… estonteante.

Nil sorriu e apontou para o velho adormecido.
— Talvez ele se interesse.

O velho apenas roncou.
— Então não temos interesse — concluiu Nil.

A viagem seguia quando algo mudou. A carruagem acelerou demais. Nil olhou para fora e sentiu o estômago afundar: goblins corriam entre as árvores. Alguns montavam cães selvagens. Outros vinham logo atrás.
— Eles estão nos perseguindo! — gritou.

Sem perder tempo, Nil conjurou uma lança de fogo contra o chão à frente, criando uma barreira incandescente. Dois goblins caíram, rolando na terra. Mas a carruagem passou por uma pedra. O impacto foi brutal. O mundo girou. Nil saltou no último instante, rolando pelo chão com agilidade élfica. A carruagem capotou. Os frascos das essências se quebraram, liberando um cheiro insuportável.

Ele se levantou a tempo de ver os goblins se aproximando.

O Encontro

Então viu outra carruagem.
— PAREM! — gritou. — GOBLINS!

Era a carruagem de Khor, Matrox e Dorne. O carroceiro tentou acelerar e o machado de Khor encostou em seu pescoço.
— Pare — disse o paladino, com voz de aço.

O homem obedeceu, parou a carroça… e fugiu para a mata. Ao sair da carruagem capotada e avaliar o caos à frente, Khor não perdeu tempo. Seus olhos correram pelo campo improvisado de batalha — a estrada estreita, a mata fechada de um lado, o cheiro acre das essências quebradas impregnando o ar — e, por um instante, tudo pareceu convergir para um único ponto: a criança.
— Dorne — disse ele, com voz firme, sem elevar o tom — por favor, segure a menina.

O anão obedeceu de imediato. Envolveu a criança com cuidado, como quem protege algo frágil demais para aquele mundo, e fechou os olhos por um breve segundo. Murmurou palavras antigas, carregadas de fé, e ergueu o símbolo sagrado junto ao peito. A magia respondeu. Um campo invisível se formou ao redor de Khor, endurecendo o ar, reforçando cada articulação da armadura, cada elo, cada placa. A muralha viva tornava-se ainda mais impenetrável. Khor sentiu o peso da bênção se assentando sobre ele como um juramento renovado.
— O que aconteceu? — perguntou, avançando ao lado de Matrox em direção ao elfo que acabara de saltar da carruagem.

Nil respirava com dificuldade, mas não perdeu tempo com explicações longas.
— Goblins. Estávamos sendo perseguidos. Muitos. Eles estão logo ali.

Ao falar, Nil já calculava distâncias, rotas e possibilidades, a mente funcionando no mesmo ritmo que a magia que prestes estava a liberar.

Como se as palavras o chamassem, o primeiro grupo surgiu entre as árvores. Dois goblins montavam cães selvagens, criaturas ossudas, de presas expostas, salivando em antecipação. Logo atrás, mais seis corriam pelo chão, armados com lâminas toscas e gritos estridentes.

Khor avançou alguns passos e fincou os pés no chão enlameado. Ergueu o escudo à frente do corpo, posicionando-se entre os inimigos e o grupo.
— Fiquem atrás de mim.

Matrox, por outro lado, não esperou ordens. Um rosnado profundo escapou de sua garganta quando a fúria tomou conta de seus músculos. Veias saltaram sob a pele verde, o corpo pareceu crescer, endurecer. Ele avançou como uma força da natureza. O machado descreveu um arco perfeito no ar. O golpe foi vertical, brutal, preciso.

O goblin e o cão selvagem foram partidos ao meio como se fossem um só corpo. O som foi seco, pesado, um trovão rasgando o vento. Sangue e carne se espalharam pelo chão, e o segundo goblin montado sequer teve tempo de reagir antes de perceber que estava sozinho.

Khor manteve a posição. Não atacou. Seu papel era outro. Dorne e Nil começaram a agir à distância. Runas de energia e projéteis mágicos cortavam o ar, explodindo entre os goblins que avançavam. Gritos agudos ecoaram quando a primeira horda começou a cair.

Mas não houve tempo para alívio. Entre as árvores, mais silhuetas surgiam.
— Outra horda! — alertou Nil.

A experiência ensinara a Nil que o verdadeiro perigo raramente se anuncia no primeiro ataque.

Dorne olhou rapidamente para a criança em seus braços e depois para o campo de batalha.
— Nil, fique com a garota. Ataque de longe. Eu vou para a linha de frente. Com essa armadura, serei mais útil lá.

Nil assentiu, sem hesitar. Ele recuou alguns passos, posicionando-se atrás, e pousou a criança com cuidado no chão, mantendo-a próxima. Antes de se afastar, ergueu as mãos e entoou um encantamento que fez o próprio ar vibrar. Uma magia envolveu a pele da menina, moldando-se como uma armadura translúcida, cintilante, firme. Era como se uma couraça invisível tivesse sido forjada sobre seu corpo pequeno, protegendo-a especialmente contra ataques à distância. Por um instante, até os outros se espantaram.

O cuidado não vinha apenas da estratégia. Havia ali uma necessidade quase pessoal de impedir que aquela criança desaparecesse outra vez.

Agora livre para agir, Nil avançou sua mente e lançou um feitiço de sono. Dois goblins tombaram antes mesmo de entender o que estava acontecendo, caindo pesadamente no chão. Ainda restavam oito.

Khor foi cercado. Três goblins avançaram sobre ele ao mesmo tempo, lâminas descendo em sequência, buscando brechas, articulações e pontos fracos. O escudo se moveu como uma extensão de seu corpo. Cada impacto reverberava pelos braços, sacudia os ombros, mas a defesa resistia. Os golpes mal arranhavam a armadura reforçada pela fé.

Ameaça Mortal

Mesmo sob ataque, Khor mantinha os olhos no horizonte. Ele via o líder. Uma silhueta maior, mais lenta, mas avançando com determinação. Sabia que não podia gastar tudo agora. A verdadeira ameaça ainda vinha. O tempo parecia se comprimir. Cada segundo pesava como chumbo.

Matrox e Dorne lutavam sem cessar. O orc esmagava ossos e carne com golpes devastadores. O anão avançava com martelo e fé, quebrando defesas, derrubando inimigos. Um a um, os goblins caíam. Khor percebeu que precisava mudar o ritmo.

Deixou a defesa pura e avançou, juntando-se aos companheiros na ofensiva. Flechas de fogo de Nil cortavam o campo de batalha, explodindo ao atingir os inimigos. Eram uma esperança ardente vinda de longe. Restavam apenas dois goblins quando o ar pareceu mudar.

Entre as árvores, uma silhueta maior surgiu, rompendo os galhos baixos sem pressa. O goblin chefe avançava. O peito subia e descia de forma pesada, como se tivesse corrido por longas distâncias, mas não havia sinal algum de fraqueza em sua postura. Era mais alto que os outros, mais largo, os músculos tensos sob a pele grossa. Seus olhos pequenos observavam o campo de batalha com atenção cruel.

A presença daquela criatura alterava o ritmo do confronto, como se o próprio campo de batalha tivesse entendido que aquilo ainda não era o fim.

Em suas mãos, a verdadeira ameaça: uma cimitarra de dentes irregulares, afiados como serras, completamente coberta por uma gosma verde espessa. A substância escorria lentamente pela lâmina, pulsando como algo vivo, exalando um odor ácido que queimava as narinas.

Matrox não lhe deu tempo para anunciar sua presença.

Com um rugido, o orc girou o corpo e desferiu um golpe final em um dos dois goblins restantes, esmagando-o contra o chão com brutalidade. Quase ao mesmo tempo, Nil ergueu a mão e uma flecha de fogo cortou o ar, atravessando o último inimigo menor, que caiu em chamas, se debatendo até silenciar.

Agora, só restava o líder. Dorne avançou um passo, firmando os pés, o símbolo sagrado erguido com força.
— Solte sua arma! — bradou, a voz carregada de fé e autoridade.

A ordem ecoou clara, poderosa… e inútil. O goblin chefe inclinou a cabeça lentamente, como se ponderasse a ordem por um instante. Então sorriu, um sorriso torto e cruel. Seus dedos apertaram ainda mais o cabo da cimitarra. Ele não soltou nada. Pelo contrário: ajustou a postura e avançou diretamente na direção de Dorne.

Foi quando Khor se colocou entre eles. O paladino deu um passo à frente, o escudo erguido, a presença impondo-se como uma muralha viva.
— Tua fúria agora pertence a mim. Pelos meus votos, eu te impeço de ferir outros. Lute comigo! — gritou.

O ar pareceu vibrar quando o duelo compelido se fechou sobre o goblin. A criatura estremeceu por um instante, como se forças invisíveis arrancassem sua atenção do resto do mundo. Sua fúria, seu ódio, sua violência inteira se fixaram em Khor. Para ele, mais ninguém existia.

O primeiro ataque veio rápido demais para olhos comuns. A cimitarra desceu em um arco violento, raspando o escudo com um impacto que fez o metal gemer. O segundo veio logo em seguida, ainda mais feroz, buscando um ângulo diferente, tentando romper a defesa.

Os olhos do grupo se arregalaram. Khor manteve-se firme.
— O próximo pode doer — murmurou entre os dentes.

Então todos atacaram. Matrox avançou com fúria renovada. Dorne golpeou com o martelo, a fé guiando cada movimento. Nil disparou flechas de fogo que explodiam contra o corpo do monstro. Khor atacou com o machado, buscando brechas, forçando recuos.

O impacto foi devastador. E ainda assim… o goblin permaneceu de pé. O líder rugiu e contra-atacou. A lâmina finalmente encontrou carne. Khor sentiu algo errado no mesmo instante — não era apenas dor. Era frio. Era corrupção. Algo maligno se infiltrando pelo ferimento. Ainda assim, ele resistiu, rangendo os dentes.
— Não parem! — gritou. — Ele não vai passar por mim!

Matrox, Dorne e Nil atacaram novamente, com tudo o que tinham. O monstro recuou um passo, depois outro… mas não caiu. Então veio outro ataque. Khor conseguiu bloquear o primeiro golpe. O segundo, porém, passou. A lâmina cortou fundo. Dessa vez, o efeito foi imediato. As pernas de Khor vacilaram. Um peso tomou seu corpo. Ele sentiu o veneno se espalhar como fogo frio nas veias. O goblin percebeu. Seus lábios se curvaram em um sorriso curto, satisfeito.

Por um instante, ninguém acreditou no que viu em seguida.
— Pela Luz que tudo purifica, que o mal no sangue se desfaça e a carne se restabeleça.

Um brilho intenso envolveu o paladino. A luz percorreu sua armadura, suas mãos, o ferimento aberto. O veneno foi expurgado tão rápido quanto havia entrado. As feridas começaram a se fechar diante dos olhos de todos. Agora era Khor quem sorria.

O goblin arregalou os olhos, surpreso pela primeira vez. Nil não deu trégua. Flechas de fogo atingiram o inimigo. Dorne avançou, martelo descendo com força sagrada. Khor atacou com o machado, cada golpe pesado, determinado. E então Matrox concentrou toda a sua fúria em um único movimento.

O golpe atingiu o ombro do goblin chefe com precisão brutal. O impacto foi diferente dos anteriores. Houve um estalo seco. O dano foi real. Mas o monstro ainda estava vivo. Mesmo ferido, mesmo sangrando, o goblin chefe avançou mais uma vez, os olhos queimando de ódio. Não havia hesitação. Não havia medo. Apenas a necessidade de matar. A cimitarra envenenada descreveu dois arcos quase impossíveis de acompanhar.

O primeiro golpe atingiu o escudo de Khor com força brutal. O impacto foi suficiente para fazê-lo recuar meio passo, o braço vibrando até o ombro. A guarda se abriu por um instante — um único, fatal instante. O segundo golpe veio como uma serpente. A lâmina encontrou carne.

Khor sentiu a dor rasgar o corpo, mas foi o que veio depois que fez seus músculos travarem. O frio. A invasão. A certeza imediata de que algo errado se espalhava por suas veias. O veneno estava ali de novo. Desta vez, não houve luz. Não houve expulsão imediata. Ele sabia. Seu dom tinha limites.
— Maldito… — rosnou, com a voz rouca, forçando-se a permanecer de pé.

O goblin percebeu. Um sorriso torto surgiu em seu rosto deformado ao notar que o brilho não voltara. Mas foi um erro curto demais para ser comemorado. Os outros viram também. E entenderam. O monstro estava ferido. Cansado. Perdendo. Eles atacaram juntos.

Nil lançou mais uma rajada de fogo, as chamas envolvendo o corpo do inimigo. Dorne avançou, o martelo descendo com fúria sagrada, quebrando ossos, forçando recuos. Khor, mesmo envenenado, ergueu o machado e golpeou, sustentando a linha com pura força de vontade.

Então Matrox avançou. O orc não gritou dessa vez. Não rugiu. Apenas concentrou toda a fúria restante em um único movimento. O machado descreveu um arco definitivo e atingiu exatamente onde já havia ferido antes. O golpe rasgou do ombro até o meio da barriga do goblin chefe


O som foi horrível. A criatura soltou um grito longo, rasgado, um último protesto contra a morte inevitável, antes de tombar pesadamente no chão, o corpo inerte, a ameaça finalmente encerrada. O silêncio caiu como um peso.

Khor virou-se imediatamente e correu até a criança, ajoelhando-se ao seu lado, os olhos atentos, o coração apertado até confirmar que ela estava intacta, protegida pela magia. Matrox ergueu o machado ensanguentado e urrou em vitória, o som ecoando pela estrada e pela mata ao redor. Dorne aproximou-se do corpo do monstro com calma pesada. Ajoelhou-se, segurou a cimitarra ainda coberta pela gosma verde pulsante e a examinou com interesse genuíno.
— Uma ótima aquisição — disse, rindo baixo. — Embora eu preferisse ouro.

Nil já corria de volta para a carruagem destruída. Procurou por sinais de vida. Chamou. Virou corpos. Não encontrou ninguém. Apenas mortos. Com um suspiro contido, recolheu sete moedas de ouro espalhadas entre os destroços.
— Eles não vão precisar mais disso — murmurou.

Por um breve momento, ninguém falou. Apenas respiraram.

Então subiram na carruagem abandonada pelo carroceiro fugitivo e seguiram viagem. Jarvan os aguardava.