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Capítulo 2

Capítulo 3

Sob o Olhar das Muralhas

Jarvan surgiu diante deles como uma cidade forjada para resistir. Tudo ali era pedra: muralhas altas, torres compactas, construções densas que pareciam disputar espaço umas com as outras. Não havia leveza naquela arquitetura, apenas permanência. O som dos cascos da carruagem ecoava diferente ao se aproximarem, como se a própria cidade anunciasse que estava desperta.

A cidade não parecia apenas preparada para guerras externas, mas moldada para suportar longos períodos de medo interno, como alguém que aprende a sobreviver se fechando.

Para entrar, era preciso passar pelo grande portão.

Guardas armados vigiavam a entrada, atentos, examinando cada rosto. À frente deles, uma pequena fila avançava lentamente. Fazendeiros cobertos de poeira, pessoas a pé carregando sacos e ferramentas, viajantes cansados, todos eram parados, questionados, liberados ou retidos por alguns instantes. Jarvan não se abria sem cautela.

Quando chegou a vez da carruagem, um dos guardas aproximou-se e olhou diretamente para Nil, que conduzia o veículo.
— O que vieram fazer em Jarvan?

Nil respondeu sem rodeios.
— Fomos atacados por goblins na estrada. Pegamos esta carruagem e, com muita dificuldade, conseguimos derrotá-los.

O guarda não reagiu de imediato. Em vez disso, cruzou os braços e respirou fundo, como alguém que confirmava algo que já vinha ouvindo demais.
— Isso condiz com o que tem acontecido ultimamente — disse, por fim. — Pessoas reclamando de ataques de goblins, outras mortas… até mesmo soldados da nossa guarda. — Fez uma breve pausa. — Recentemente, um carroceiro chegou aqui dizendo que foi atacado e conseguiu fugir.

Alguns olhares na fila se voltaram para o grupo. Murmúrios começaram a se espalhar. O guarda então voltou a encarar Nil, estreitando os olhos.
— Mas me responda uma coisa. Só você derrotou uma horda completa?
— Eu e as pessoas que estão comigo na carruagem — respondeu Nil, firme.

O guarda deu um passo à frente e bateu com força na lateral da carruagem, o som seco reverberando sob o portão.
— Vocês. Saiam daí.

Um a um, todos desceram. A presença do grupo chamou atenção imediata. Pessoas cochichavam, apontavam discretamente. Não era comum ver guerreiros armados, uma criança silenciosa e marcas recentes de batalha entrando juntos em Jarvan. Dorne foi o primeiro a quebrar o silêncio, como sempre.
— Fizemos o serviço de vocês na estrada — disse, abrindo os braços. — Tem recompensa?

O guarda o encarou por um instante antes de responder:
— Pode ser que haja algo na guilda dos caçadores. — Então acrescentou: — Quais são seus nomes?

Todos se apresentaram, um após o outro. O guarda assentia conforme ouvia, gravando cada nome. Seu olhar então desceu até a criança.
— E essa menina?

Khor deu um passo à frente antes que qualquer outro falasse.
— Sou membro da guarda da vila de Vento Forte — disse, a voz firme e controlada. — Fui enviado pelo capitão para trazer a criança até seus pais.

A reação foi imediata. O guarda arregalou levemente os olhos. Pessoas próximas começaram a sussurrar com mais intensidade. O nome da vila, a guarda, a criança — tudo se encaixava de forma desconfortável. Khor continuou, explicando que fora até a guarda, vira o valor da recompensa e decidira reunir uma equipe. Não por ganância, mas porque entendeu que aquilo seria desafiador demais para enfrentar sozinho.

O guarda permaneceu em silêncio por alguns instantes, absorvendo cada palavra. Por fim, assentiu.
— Se encaminhem ao posto da guarda — disse. — Relatem tudo.

As portas de Jarvan se abriram. E com elas, ficou claro que aquela cidade já conhecia o problema que traziam — apenas ainda não sabia o quanto ele era maior do que imaginava.

Entre Pedra e Silêncio

Assim que atravessaram o portão, Jarvan se abriu diante deles em toda a sua escala esmagadora. Não era apenas grande, era vastíssima. Uma cidade de pedra erguida com intenção e permanência. As muralhas internas se sucediam como camadas de defesa, delimitando bairros, distritos e praças amplas. Casas altas de alvenaria sólida se alinhavam ao longo de ruas largas, pavimentadas com blocos de pedra cuidadosamente assentados, polidos pelo fluxo constante de pessoas e carroças. Arcos ligavam construções, pontes menores cruzavam desníveis, e torres se erguiam em pontos estratégicos, vigiando não inimigos externos, mas o próprio coração da cidade. O som era constante. Martelos batendo, rodas rangendo, vozes se cruzando em dezenas de idiomas e sotaques. Jarvan respirava movimento.

Khor caminhava atento, os olhos percorrendo tudo com desconfiança treinada.
— Alguém conhece o caminho até a guarda? — perguntou, sem diminuir o passo.

Nil respondeu prontamente, observando as ruas com um misto de reconhecimento e estranhamento.
— Sim. Conheço. — Fez um gesto amplo com a mão. — Sou profundamente familiar com a geografia e com as ruas da cidade… embora apenas pelos livros. Jarvan sempre foi um ponto central nos registros históricos. Distritos militares ao norte, zonas comerciais a oeste, e a guarda principal próxima ao coração administrativo.
— Então nos conduza — disse Khor.

Seguiram adiante, atravessando uma grande via onde carroças disputavam espaço com pedestres, vendedores gritavam ofertas e aprendizes corriam levando recados. Era impossível ignorar a vida pulsando ali. Foi então que Dorne diminuiu o passo.

A fé de Dorne reagia mal àquela cidade. Não por ausência de deuses, mas pelo excesso de sofrimento acumulado sem resposta.
— Vou dar uma passada na taverna — disse, como quem fala algo trivial. — Tomo algo rápido e alcanço vocês.

Khor olhou de lado, mas não contestou. O anão já conhecia Jarvan melhor do que aparentava.
— Não se perca — disse apenas.

Dorne sorriu de canto e desviou do grupo, cortando caminho por ruas mais estreitas. Conforme avançava, o barulho da cidade ainda o acompanhava: vozes, rodas, passos, o caos organizado de um grande centro urbano. Até que ele entrou no beco. Era curto — não mais que cinco metros de extensão. Paredes de pedra próximas demais, formando um corredor estreito. Dorne deu dois passos para dentro… e o mundo mudou. O som desapareceu. Não diminuiu. Sumiu.

O silêncio o atingiu como um impacto físico. Um calafrio percorreu seu corpo, subindo do dedão do pé até a ponta da barba espessa. Era um vazio absoluto, antinatural. Não se ouvia vento. Não se ouvia água. Nem mesmo o atrito de suas botas contra a pedra. Instintivamente, levou a mão ao martelo. Com força, bateu a cabeça da arma contra a parede. Nada.

Nenhum eco. Nenhuma vibração. A pedra parecia engolir o som por completo. O silêncio era tão intenso que a própria respiração de Dorne parecia ensurdecedora — mas apenas dentro de sua cabeça, como se o mundo se recusasse a ouvi-la. O coração acelerou.

Ele retirou o escudo das costas, posicionando-o à frente do corpo, e murmurou em voz baixa, quase um sussurro por hábito:
— Que Ilmater esteja comigo.

Foi então que percebeu. Nas duas paredes do beco, símbolos começaram a se revelar. Runas. Surgiam lentamente, como se despertassem, emitindo um brilho azulado frio. Os emblemas eram antigos, precisos, gravados profundamente na pedra, mas ocultos à vista comum. Agora, pulsavam suavemente, iluminando o corredor estreito com uma luz espectral.

Dorne deu um passo à frente, o olhar fixo nos símbolos. Ele os conhecia. A mão se moveu quase sem perceber. Tocou uma das runas. O contato foi suficiente. No instante em que seus dedos tocaram o emblema, o beco deixou de existir.

O cheiro veio primeiro — ferro quente misturado a sangue fresco. O mesmo odor que impregnara sua infância. O som, paradoxalmente, continuava ausente, mas a lembrança gritava alto demais dentro dele. Dorne sentiu o peso da armadura desaparecer, substituído pela leveza frágil de um corpo pequeno demais para segurar um martelo. Ele viu novamente a vila.

Pedra anã bem talhada, corredores estreitos, lares escavados com orgulho. Viu sua mãe à frente, armadura marcada por batalhas antigas, o machado erguido como última linha de defesa. Ela não recuava. Nunca recuara. Lutava não por vitória, mas por tempo.
— Corra — ela dissera.

Ele lembrava do empurrão. Do impacto contra o chão. Do som das lâminas orcs rasgando carne atrás dele. Lembrava de ter corrido até o ar faltar, até ser cercado, até sentir o chão frio sob o corpo pequeno demais para morrer com dignidade. E então… as mãos. Não ásperas. Não violentas. Firmes.

Clérigos de Ilmater. O Deus do Sofrimento não prometera salvação. Prometera resistência. Prometera que a dor não seria inútil. Dorne sentiu novamente o peso do manto simples sobre os ombros, o treinamento duro, os dias longos entre órfãos de todas as raças, unidos não por sangue, mas pela perda. Viu o ancião que o salvara — o homem que nunca levantava a voz, mas nunca abaixava o escudo.

Depois veio a expedição. O exército tirânico. A emboscada perfeita. O caos. Lembrou-se do golpe seco na nuca. Da escuridão forçada. Do corpo jogado em uma vala rasa, coberto de terra e sangue alheio. O mentor fizera isso para salvá-lo. Sabia disso agora. Sabia desde então.

Quando despertou, o mundo já estava morto. O monastério reduzido a cinzas. Corpos espalhados como promessas quebradas. Nenhuma canção. Nenhuma prece respondida. Apenas o silêncio — o mesmo silêncio que agora o cercava naquele beco. Dorne sentiu o estômago se revirar.

O Silêncio que Não Aceita Testemunhas

A runa sob seus dedos pulsava mais forte, como se reconhecesse nele não apenas um sobrevivente, mas um eco. Aqueles símbolos não marcavam paredes ao acaso. Eram selos de contenção. De ocultação. De sofrimento mantido em silêncio — exatamente como a ordem de Ilmater ensinara. Ele afastou a mão lentamente, respirando com dificuldade.
— Não de novo… — murmurou.

Ergueu o escudo com mais força, como fizera tantas vezes quando tudo parecia prestes a ruir. O martelo, pesado e familiar, parecia responder ao aperto de seus dedos. Não como arma, mas como lembrança viva de quem ele fora… e de quem ainda tentava ser.
— Não… — a voz de Dorne saiu rouca, quebrada. — Não acredito que esteja acontecendo de novo. Agora não.

O anão respirava com dificuldade. O beco parecia mais estreito do que antes, as paredes próximas demais, como se o espaço estivesse lentamente se fechando sobre ele.
— Nunca mais… — murmurou, os dedos se fechando ao redor do cabo do martelo. — Nunca mais vai acontecer novamente!

Havia raiva em sua voz. E algo mais perigoso: convicção.
— Agora eu estou forte. Agora eu estou preparado!

Com um passo firme à frente, Dorne ergueu o martelo acima da cabeça e o fez descer com força total contra os símbolos rúnicos gravados na pedra. O impacto foi seco, brutal — um golpe que teria rachado muralhas comuns. Mas nada aconteceu. Nenhuma lasca. Nenhuma rachadura. Nenhum som. O martelo ricocheteou levemente, como se tivesse atingido algo que não pertencia àquele mundo. O braço de Dorne tremeu com a vibração estranha que percorreu o metal. Não era resistência física. Era… rejeição.

Ele sentiu então. Maldade. Uma presença espessa, pesada, que não atacava, não gritava, não se movia — apenas existia, comprimindo o ar, a fé, o pensamento. Algo antigo demais para ser quebrado à força. Algo que não se permitia ser destruído.

Dorne recuou um passo, o coração batendo forte demais no peito.
— Covarde… — sussurrou, sem saber se falava com os símbolos… ou consigo mesmo.

Não havia mais o que fazer ali. Com passos tensos, atravessou o restante do beco. No instante exato em que saiu do outro lado, o mundo voltou. O som explodiu ao seu redor como uma onda: vozes, passos, rodas de carruagens, o burburinho constante de Jarvan. Dorne estremeceu com a mudança brusca, como se tivesse sido arrancado de outra dimensão.

Instintivamente, virou-se. O beco estava ali. Comum. Estreito. Pedra nua. Nada de símbolos. Nada de luz azul. Nada de silêncio. Apenas um beco qualquer.

Enquanto observava, um gato de rua aproximou-se cauteloso, as orelhas erguidas, o corpo baixo. O animal deu dois passos em direção à entrada do beco… e parou abruptamente. O pelo se eriçou inteiro. Um arrepio visível percorreu seu corpo pequeno. O gato miou baixo, assustado, e fugiu em disparada pela rua. Dorne sentiu um nó se formar no estômago. Nenhum animal permanecia ali.

Ele deu meia-volta e entrou novamente no beco. O silêncio caiu instantaneamente. Absoluto. As runas voltaram a brilhar nas paredes, revelando-se como antes, frias, azuis, pacientes. Nada havia desaparecido. Apenas se escondera. Dorne gravou cada detalhe na memória — a esquina, a inclinação das pedras, a distância exata da rua principal. Sabia que aquele lugar precisaria ser encontrado novamente.

Mas não agora. A taverna já não importava. Sem hesitar, saiu do beco pela última vez e seguiu em outra direção, o passo decidido, o olhar duro. Procuraria a igreja mais próxima. Precisava falar com o clérigo da cidade. Precisava entender se Ilmater ainda observava… ou se o silêncio começara a vencer até mesmo a dor.

Porque se aquilo estivesse retornando… Dorne não permitiria que o mundo sangrasse em silêncio outra vez.

Quando Alguém Chama pelo Nome

Enquanto avançavam pelas ruas largas de Jarvan em direção ao posto da guarda, Nil caminhava atento, absorvendo a cidade com o olhar treinado de quem estuda mapas e histórias há anos, mas nunca sentira o peso real daquele lugar. O fluxo de pessoas era constante: mercadores, aprendizes, soldados, crianças correndo entre adultos como parte natural da paisagem urbana.

Mesmo sem conjurar nada, Nil sentia a magia da cidade como um ruído de fundo constante, uma dissonância arcana que não se alinhava com nenhum estudo conhecido.

Foi então que sentiu o toque. Uma mão pequena, quente, segura demais.
— Oi, Nil.

A voz veio baixa, casual, como se pronunciar seu nome fosse a coisa mais comum do mundo. Nil estacou por um instante e olhou para baixo. A criança estava ali, ao seu lado. Ele nunca a tinha visto antes. Era uma menina de cerca de oito ou nove anos, pele limpa, olhos vivos, cabelos bem cuidados. Vestia-se bem — não com luxo, mas com dignidade. Não parecia uma criança de rua. Não parecia perdida.
— Eu te conheço? — perguntou Nil, inclinando-se levemente.

A menina não respondeu. Apenas seguiu andando, misturando-se ao fluxo de pessoas como se a conversa tivesse terminado antes mesmo de começar. Nil franziu o cenho.
— Oi? — chamou, dando alguns passos atrás dela.

A rua era uma das principais da cidade, cheia de crianças, risos, passos apressados. A presença dela se diluía facilmente entre tantas outras. Ainda assim, Nil não a perdia de vista.
— Oi? — tentou novamente.

Desta vez, a menina virou o rosto por cima do ombro. Sorriu.
— Tchau, Nil!

E então dobrou à direita, entrando em uma rua visivelmente menos movimentada. O coração de Nil acelerou. Ele apressou o passo, desviando de um casal, de um vendedor, de duas crianças correndo. Quando virou a esquina, viu a menina entrar em um beco estreito.
— Espere! — disse, sem perceber que havia elevado a voz.

Nil entrou logo atrás. O beco estava vazio. Nenhuma criança. Nenhum som fora do comum. Nenhum sinal de que alguém tivesse passado por ali segundos antes. Apenas pedra, sombra e um silêncio desconfortável, diferente do burburinho constante da rua principal. Nil parou no meio do beco, respirando fundo. Aquilo não estava certo.

Ele fechou os olhos por um instante e começou a se concentrar, iniciando os preparos mentais e gestuais para conjurar um feitiço de detecção de magia. Algo ali o chamara pelo nome. Algo o tocara. Aquilo não podia ser ignorado.

Enquanto isso, do lado de fora, Khor e Matrox avançaram alguns passos… e perceberam a ausência. Nil não estava mais com eles.

Khor parou imediatamente e olhou ao redor, avaliando a rua, os becos, as pessoas.
— O que fazemos? — perguntou, voltando-se para Matrox. — Esperamos ele?

O orc nem diminuiu o passo. Seus olhos estavam fixos à frente, a postura rígida, pragmática.
— A recompensa é mais importante.

Khor permaneceu imóvel por um segundo a mais, o olhar dividido entre o caminho à frente… e o vazio deixado para trás.

Pedra, Ferro e Esperança Cansada

Matrox seguiu andando sem olhar para trás, tomando o caminho que Nil havia indicado momentos antes. Seus passos eram firmes, decididos, guiados mais pelo instinto do que por qualquer pressa. Khor o acompanhou logo atrás, mantendo a criança próxima, atento a cada desvio, a cada sombra entre as construções. O quartel da guarda de Jarvan não tardou a surgir.

Era um edifício imponente, construído inteiramente em pedra bem talhada, com portas largas de madeira reforçada por tiras de ferro escurecido. Não parecia um posto improvisado, mas um verdadeiro centro militar, sólido e organizado, feito para durar gerações. À frente, soldados armados patrulhavam a entrada. Pelo menos oito guardas estavam visíveis, conversando em pares, atentos ao movimento da rua.

Na parede externa, um grande quadro de recompensas chamava atenção. Matrox parou diante dele quase instintivamente. Os cartazes variavam: marginais comuns, ladrões conhecidos, desertores. Recompensas pequenas, dez moedas de ouro… cinquenta… cem. Mas então, mais ao centro do quadro, um aviso destoava dos demais. Uma recompensa absurda: cinquenta mil moedas de ouro. O rosto retratado era o de uma mulher.

Para Matrox, números sempre diziam a verdade que palavras escondiam. Recompensas altas significavam algo simples: ninguém estava no controle.

Matrox inclinou levemente a cabeça, soltando uma breve risada nasal.
O que essa mulher fez, pensou, para valer tudo isso?

Antes que pudesse se demorar mais, uma voz firme interrompeu o momento.
— Alto lá. O que vieram fazer aqui?

Um dos guardas havia se aproximado, a mão descansando sobre o punho da arma. Outros dois se moveram discretamente, formando um semicírculo.

Khor deu um passo à frente.
— Viemos a mando da guarda da vila de Vento Forte — disse com calma. — Fui encarregado de trazer esta criança de volta à sua família.

A reação foi imediata. Os guardas trocaram olhares rápidos, surpresos. Um deles franziu o cenho. Outro inspirou fundo, como se confirmasse algo que não queria ser verdade.
— Entrem — disse o primeiro, abrindo caminho. — Rápido.

O interior do quartel era tão organizado quanto o exterior. Na recepção, um atendente escrevia algo em um livro grosso. Algumas pessoas estavam sentadas em bancos de madeira, aguardando. À esquerda, viam-se as celas: grades grossas, sombras atrás do ferro, o silêncio pesado de quem aguardava julgamento. À direita, uma porta mais larga indicava a sala do oficial responsável.

Khor aproximou-se do atendente e, pela quarta vez naquele dia, explicou toda a situação. O homem ouviu com atenção, assentiu e apontou para a direita.
— A sala do oficial. Pode ir.

Mesmo com a porta aberta, Khor bateu levemente com os nós dos dedos, anunciando a presença. Do interior, uma voz grave e serena respondeu:
— Entrem.

O homem que se levantou para recebê-los era grande. Muito grande. Alto, largo de ombros, forte — mas sem excesso. Não era barrigudo. Era sólido. A presença lembrava uma muralha humana. Tinha cerca de um metro e noventa, barba espessa, olhar firme. Sua voz era tranquila, mas carregava autoridade natural.

Antes mesmo de falar, ele os observou por um segundo a mais do que o normal. Khor sentiu aquilo claramente: aquele homem havia visto tudo — as armas, as marcas de batalha, a exaustão… e a criança. Tudo em um único olhar.
— Sentem-se — disse, apontando para as cadeiras. — Me chamo Morim. Do que precisam?

Morim era um homem grande, de ombros largos e corpo pesado, não pela gordura, mas por força sólida e disciplinada. A barba espessa e bem cuidada emoldurava um rosto marcado por anos de comando, e seus olhos carregavam a calma de quem já enfrentara crises demais para se permitir pânico. Não era um herói, era um pilar. O tipo de homem que mantém cidades de pé enquanto outros caem.

Khor respirou fundo e explicou novamente, com paciência controlada, sobre a recompensa, sobre a guarda de Vento Forte, sobre a missão de levar a criança de volta. Morim não interrompeu. Quando Khor terminou, o oficial se aproximou da menina, agachando-se ligeiramente para observá-la melhor.

Enquanto falava, Khor avaliava Morim com cuidado. Reconhecia naquele homem o peso silencioso de quem toma decisões que nunca aparecem em canções.
— Ela está muito magra — disse por fim. — Faz meses que desapareceu.

Ele se endireitou, o olhar pesado agora.
— Vocês sabiam que nenhuma dessas crianças jamais foi encontrada? — continuou. — Muitos soldados morreram. Homens bons perderam casas, posses… famílias inteiras foram destruídas tentando procurar respostas.

Khor assentiu lentamente.
— Por isso reuni uma equipe — respondeu. — Vi o valor da recompensa e entendi que aquilo não seria simples. Fiz uma promessa. Gostaria de saber como proceder.

Morim suspirou.
— Agradecemos o esforço — disse. — Mas suspeito que essa família não terá condições de pagar. O pai vendeu quase tudo o que tinha para contratar ajuda, para investigar, para procurar. Eles estão passando por dificuldades extremas.

Houve um breve silêncio.
— Ainda assim — continuou Morim — levaremos a criança até eles. Vamos devolver um pouco de esperança a esta cidade. — Fez uma pausa curta. — Mas estejam preparados. Isso trará atenção. Popularidade. Nem toda ela será boa.

Khor olhou novamente para a menina. Ela permanecia imóvel, o olhar distante, presa em um transe que ele não conseguia quebrar. Talvez, pensou, fosse a última vez que estaria ali para protegê-la.

E essa certeza pesou mais do que qualquer recompensa.

Quando o Silêncio se Rompe

Ao deixarem o quartel, os olhares se voltaram imediatamente para eles. Morim seguia à frente com passos firmes, Khor logo atrás, a criança protegida junto ao peito, e Matrox caminhando alguns passos ao lado, atento demais ao redor. A cidade parecia ter percebido que algo diferente estava acontecendo. Soldados passaram a acompanhá-los, abrindo caminho. Pessoas surgiam das laterais das ruas, encostavam-se às paredes, interrompiam o próprio caminho para observar.

A multidão crescia a cada esquina. Sussurros se espalhavam como vento entre pedras.
— Será que é uma das crianças?
— Quem são esses?
— Ela voltou… será possível?
— Ou é mais uma mentira?

Havia esperança nos olhos de alguns. Desconfiança em muitos. Medo em quase todos. Jarvan caminhava junto, dividida entre querer acreditar e temer a resposta. Quando chegaram à casa, Morim fez um gesto firme para que os soldados permanecessem do lado de fora. As pessoas foram contidas à distância. Apenas ele, Khor e Matrox entraram, levando a criança.

A casa era simples. Não havia luxo, mas também não havia miséria. Móveis bem cuidados, paredes limpas, sinais claros de que ali vivera uma família de classe média antes de tudo ruir. Um lar que resistira até onde pôde.

Morim deu alguns passos à frente e chamou, com a voz baixa, respeitosa:
— Josa?

Do fundo da casa, surgiu uma mulher. Era magra. Magra demais. Os olhos fundos carregavam uma tristeza antiga, pesada. Caminhava devagar, olhando para o chão, como alguém que já não esperava boas notícias.
— Josa… — chamou Morim novamente.

Ela ergueu o rosto, o olhar cansado, sofrido.
— Olhe quem nós trouxemos.

Por um instante, o mundo parou. Os olhos de Josa encontraram a criança. O corpo reagiu antes da mente. Ela correu, quase tropeçando, e tomou a filha dos braços de Khor, apertando-a contra o peito com força desesperada. O choro veio rasgado, aliviado, misturado a risos incoerentes. Era alegria crua, sem forma, sem palavras.

Era a segunda vez que Khor soltava a criança. A primeira, forçado, para enfrentar a batalha contra os goblins. A segunda, agora, para devolvê-la à mãe.

Ao afastar as mãos, Khor sentiu algo se romper dentro dele, não como alívio, mas como aviso. Salvar alguém nunca encerrava a dívida. Apenas a adiava. Além disso, Khor sentiu algo diferente. Um vínculo se rompeu. Não físico. Não emocional apenas. Algo mais profundo, quase místico, como se um fio invisível tivesse sido cortado. A presença que antes pulsava, pressionava, desapareceu.

A alegria daquela mãe, abraçando a filha, parecia ter quebrado algo antigo. Khor apenas observava, aliviado, o peso nos ombros diminuindo pela primeira vez desde que tudo começara.

Matrox, alguns passos atrás, afastou-se instintivamente. Fechou os olhos por um momento, como quem espera algo acontecer. Nada. Nenhuma contagem. Nenhum número. A contagem havia acabado.

Josa voltou-se para Morim, os olhos ainda marejados.
— Obrigada… — disse, com a voz falha.

Morim assentiu, respeitoso.
— Josa… sobre a recompensa.

Ela hesitou por um instante, então foi até uma mesa simples e despejou sobre ela um punhado de moedas, tudo o que tinha. O som metálico ecoou pequeno demais para o que haviam enfrentado.
— Não vamos conseguir honrar a recompensa — disse, envergonhada. — Não hoje. Mas tentaremos… quando meu marido voltar.

Khor recolheu as moedas e colocou-as em uma pequena bolsa. Notou imediatamente o olhar de Matrox, a urgência silenciosa. Fez apenas um gesto discreto, pedindo paciência. Em seguida, voltou-se para Morim.
— Já que a recompensa não poderá ser honrada — disse com gentileza — preciso pedir ajuda. Qualquer coisa disponível.

Josa, ainda abraçando a filha, ergueu o rosto.
— Não tenho mais nada… — começou. — Mas há uma herança de família.

Ela se afastou rapidamente e voltou trazendo um pequeno baú. Abriu-o diante deles. Dentro, um cordão de ferro simples, pesado, com um talismã pendurado. O emblema era estranho: lembrava um olho estilizado, antigo.
— Não há tesouro maior que minha filha — disse. — Aceite.

Khor inclinou a cabeça em agradecimento. Despediu-se da criança e de Josa com respeito contido, como quem sabe que certas despedidas não precisam de palavras. Voltou-se novamente para Morim.
— Precisamos de ajuda. Alimentação. Um lugar para passar a noite.

Morim suspirou.
— Não posso oferecer comida nem alojamento — respondeu. — Estamos superlotados. Falta suprimento até para os soldados. Muitos dormem dentro da guarda por não haver espaço.

Fez então uma pausa.
— Mas posso oferecer outra coisa. Serviços que não são disponibilizados a pessoas comuns. Trabalhos mantidos em segredo. — O olhar endureceu levemente. — Serviços com boa recompensa garantida.

Khor assentiu.
— Voltaremos pela manhã.

Eles se despediram com um aperto de mão firme. Ao sair da casa, a noite de Jarvan parecia mais pesada do que antes. A criança estava salva. Mas o mundo ao redor continuava doente.

E algo dizia a Khor que aquilo havia sido apenas o primeiro nó desfeito de muitos.

Runas que Não Querem Ser Ouvidas

Nil concluiu o último gesto do feitiço com os dedos ainda suspensos no ar. O beco permanecia estreito, sufocante, com pouco mais de um metro e meio de largura, mas agora havia algo diferente ali. A detecção se fechou ao redor dele como uma percepção dolorosa. Aquilo não era magia comum. Não era arcana moldada por vontade ou estudo. Não era divina. Não era natural. Era maligna.

Nil sentiu um peso frio se instalar atrás dos olhos, como se algo observasse sua mente em resposta ao feitiço. O ar parecia mais denso, carregado de uma intenção silenciosa. Foi então que os símbolos se revelaram. Dois emblemas rúnicos surgiram lentamente nas paredes opostas do beco, um de frente para o outro, como espelhos distorcidos. O brilho que emanavam era azul — um azul específico demais para ser ignorado. Nil sentiu o estômago revirar.

Era o mesmo tom. O mesmo azul do prisma. A lembrança veio imediata, involuntária. O objeto que o arrancara da biblioteca, que o jogara no início daquela jornada, pulsava exatamente naquela cor. Não havia coincidência ali. Nil fechou os olhos por um instante e recorreu a tudo o que sabia. Fez o cálculo mental quase como um reflexo: camadas de conhecimento arcano, línguas antigas, tratados esquecidos. Em um lampejo de memória, lembrou-se de um livro — um volume antigo demais para ser copiado, ilustrado com símbolos semelhantes àqueles.

Magia arcaica. Muito arcaica. Talvez com mais de cinco mil anos. E ainda assim, mesmo conhecendo cinco línguas, mesmo tendo estudado símbolos proibidos e alfabetos esquecidos, Nil não conseguia identificar aquela escrita. Aquilo estava fora de qualquer sistema conhecido.

O beco era estreito demais para testes elaborados. Nil abriu os braços lentamente e tocou os dois símbolos ao mesmo tempo, as palmas pressionadas contra a pedra fria. Nada. Nenhum choque. Nenhuma reação. Nenhuma resposta além da mesma sensação opressiva, silenciosa, observadora. Ele afastou as mãos e respirou fundo.

Talvez o gatilho não fosse o toque. Talvez fosse o movimento. Nil começou a avançar na direção em que a criança havia desaparecido… e quase colidiu com alguém. Dorne.

O anão vinha em sua direção, o olhar sério, carregado.
— O que você está fazendo aqui? — perguntou Nil, surpreso.
— Procurando respostas — respondeu Dorne sem hesitar. — Vi algo em um beco. Algo que não deveria estar ali. Pelo visto, você também viu. O que aconteceu?
— Senti uma magia maligna — disse Nil. — E vi símbolos naquele beco.

Dorne franziu o cenho.
— Foi nesse beco que você viu isso?
— Sim. Logo atrás de mim.

O anão respirou fundo.
— Intrigante. Eu vi símbolos parecidos em outro beco. Quatro quarteirões atrás.

Houve uma pausa curta, pesada.
— Vamos olhar? — sugeriu Nil.

Nil entrou primeiro. Quando Dorne cruzou completamente a entrada do beco, o mundo desapareceu para ele. O silêncio caiu como uma lâmina. Não era ausência de som — era negação. Dorne sentiu o mesmo vazio absoluto, a mesma ruptura de realidade que o arrebatara antes. Ele estava presente… mas deslocado, como se tivesse atravessado um limiar invisível.

Nil falava. Dorne não ouvia nada. Nenhuma palavra. Nenhum eco. Apenas o silêncio esmagador e o som perturbador da própria respiração dentro da cabeça. Ele fez um gesto, balançando a mão diante do rosto, indicando que não escutava coisa alguma.

Nil percebeu imediatamente. Dorne voltou o olhar para as paredes. Os símbolos ali eram diferentes. Semelhantes, mas não idênticos. Como variações de uma mesma linguagem maligna. O brilho azul pulsava de forma irregular, quase respirando. Nil arrancou uma folha de seu livro de anotações e estendeu ao anão, junto com um carvão.

Dorne escreveu rapidamente, a mão firme apesar do tremor interno: Não ouço nada.

Nil respondeu no mesmo papel: Consigo ouvir normalmente.

Dorne fez outro gesto, chamando-o para fora. Antes de sair, Nil ajoelhou-se e, com rapidez e precisão, desenhou os símbolos em seu livro, registrando cada curva, cada ângulo, cada imperfeição. Quando atravessaram o limiar do beco, o som voltou de uma vez.

Dorne inspirou fundo… e gritou, tomado pelo desespero contido:
— Nil! Esse símbolo não é coisa boa! Isso é sinal de desgraça! É uma magia muito ruim!

Ele segurou o próprio escudo com força.
— Você conhece algum desses símbolos?

Nil assentiu lentamente.
— Já tive contato. Em algum livro antigo. Precisamos ir à biblioteca. Pesquisar.

Dorne fechou os olhos por um instante.
— Esses símbolos foram a causa do massacre do meu clã — disse, com a voz mais baixa. — Eu estava pensando em ir a uma igreja.

Nil não hesitou.
— Vamos à igreja primeiro. Depois, à biblioteca.

Eles se afastaram do beco, carregando mais perguntas do que respostas — e a certeza de que aquilo que enfrentavam não era recente, nem local. Era antigo.

E estava acordando.

Sob a Luz que Ainda Resiste

Khor e Matrox caminhavam pelas ruas de Jarvan atentos, os olhos vasculhando rostos e esquinas, à procura de Dorne. A cidade já havia mudado de tom com a chegada da noite: tochas eram acesas, o burburinho diminuía aos poucos, e sombras mais longas se acumulavam junto às paredes de pedra.

Foi diante da igreja que os encontraram. Dorne estava ali, parado à frente da entrada, e ao vê-los ergueu o braço e acenou com energia inesperada, chegando a dar um pequeno salto para chamar atenção. Poucos passos adiante, Nil surgia ao seu lado.

Agora estavam novamente completos. Khor, Matrox, Nil e Dorne.

Dorne não perdeu tempo. Assim que se reuniram, começou a explicar o que ele e Nil haviam encontrado: os becos, o silêncio absoluto, os símbolos rúnicos que surgiam nas paredes como cicatrizes antigas na cidade. Falava com intensidade demais para alguém que normalmente falava muito por hábito — ali havia medo, mas também excitação, a ânsia de compreender algo terrível antes que fosse tarde demais.
— Precisamos descobrir o que são esses símbolos — disse, por fim. — Eles não pertencem a este lugar… mas estão aqui.

Matrox cruzou os braços, claramente impaciente.
— E o dinheiro? — perguntou. — Vamos dividir logo isso.

Dorne hesitou por um instante. O peso das lembranças ainda estava vivo demais. A morte de seu clã, o silêncio imposto, os símbolos gravados na memória como feridas abertas. Quando soube do valor — apenas vinte moedas de ouro para os três — soltou uma risada curta, amarga.
— Isso? — disse. — Não quero minha parte. É pouco demais. Não me interessa.

Khor observou-o em silêncio por um segundo e então retirou a bolsa.
— Dez para você — disse, entregando-as a Matrox. — Fico com o resto.

Matrox segurou as moedas, mas não pareceu satisfeito.
— O oficial Morim falou de serviços melhores — resmungou. — Deveríamos ir atrás disso logo.

Khor respirou fundo.
— Vamos ajudar nossos amigos primeiro — respondeu. — Dorne está… abalado. Dormimos, descansamos, e pela manhã voltamos a falar com Morim.

Matrox olhou de lado, avaliando. Por fim, assentiu.
— Tudo bem.

Dorne, tentando aliviar o peso do momento, franziu o nariz.
— E talvez você possa tomar um banho antes — comentou. — O cheiro de goblin ainda está impregnado em você.

Matrox soltou um grunhido baixo, mas não discutiu. A tensão diminuiu apenas o suficiente para que todos respirassem. Juntos, os quatro adentraram a igreja.

A capela era grande e bem cuidada, iluminada por velas altas e candelabros presos às colunas de pedra. No altar, um jovem sacerdote organizava livros e objetos litúrgicos, interrompendo o que fazia ao perceber a aproximação do grupo. Dorne deu um passo à frente.
— Olá. Sou Dorne, o Gentil — disse, com respeito. — Devoto de Ilmater. Preciso de ajuda com alguns símbolos.

O sacerdote inclinou a cabeça.
— Mostre-me.

Dorne voltou-se para Nil, que abriu o livro de anotações e revelou os desenhos cuidadosos das runas. O jovem sacerdote aproximou-se, estudando cada traço com atenção crescente.
— Não reconheço nada disso — disse por fim. — Onde viram esses símbolos?
— Em becos diferentes — respondeu Dorne. — Cada símbolo em um lugar. Mas… ao entrar nesses becos, sentimos como se tivéssemos entrado em um mundo vazio.

O sacerdote ergueu o olhar.
— Vocês sentem isso ao estar nesses lugares?
— Sim — respondeu Dorne imediatamente.

Nil complementou:
— Não senti da mesma forma que ele. Mas fiz uma detecção mágica. É magia maligna. Disso eu tenho certeza.

O sacerdote franziu o cenho.
— Não sei dizer se isso é arcano ou divino — admitiu. — Vou tentar memorizar os símbolos e pesquisar.

Nil então perguntou:
— Não há anciões aqui que possam ajudar?

O sacerdote suspirou.
— Não. Todos estão em missões. Procurando as crianças desaparecidas.

Dorne fechou os punhos.
— Acho que esses símbolos têm ligação direta com os desaparecimentos.

O sacerdote assentiu lentamente, como quem começa a compreender a gravidade do que ouvia.
— Meu nome é Beiro — disse, enfim. — Quando um dos anciões retornar, mostrarei isso a ele. Por ora, só posso abençoá-los… e desejar que suas jornadas sejam boas. Ele ergueu as mãos, murmurou uma prece breve, sincera.

Pouco depois, os quatro deixaram a capela. Do lado de fora, a noite de Jarvan parecia ainda mais pesada. E, agora, sabiam que a cidade não estava apenas sendo observada.

Estava sendo marcada.

Quando o Ciclo se Revela

Assim que deixaram a capela, ainda sob a luz trêmula das velas que ficara para trás, depararam-se com uma cena que fez o ar pesar de imediato.

Duas pessoas atravessavam a rua apressadas, quase correndo, falando alto demais para quem carregava más notícias.
— Sumiu… mais uma criança sumiu! — dizia uma delas, a voz falhando. — Foi agora há pouco!
— Precisamos avisar a guarda — respondeu a outra, já mudando de direção.

Ambas seguiram apressadas em direção ao quartel. Dorne não esperou que se afastassem muito.
— Vamos atrás dos pais. Agora! — disse, o tom urgente, quase imperativo.

Sem perder tempo, o grupo mudou de rota e seguiu também em direção à guarda, buscando informações sobre onde a criança morava. Quanto mais se aproximavam, mais gente surgia. Pequenos aglomerados se formavam, pessoas discutiam, choravam, apontavam direções. A notícia já havia se espalhado.

Ao chegarem à frente do quartel, a movimentação era intensa. Pessoas falavam ao mesmo tempo, guardas tentavam organizar a multidão, vozes se sobrepunham em desespero.

Nil escutava atentamente. Então percebeu algo que fez o estômago se revirar. As descrições. A criança desaparecida — diziam — tinha a mesma idade. A mesma aparência. As mesmas roupas. Era idêntica à criança que ele vira horas antes. A que o chamara pelo nome. A que tocara seu braço. A que dobrara no beco… e desaparecera.

Nil aproximou-se discretamente do grupo e falou em voz baixa:
— Eu vi essa criança. Ela falou comigo. Tocou no meu braço… e sumiu naquele beco.

Por um instante, ninguém respondeu. Dorne foi o primeiro a quebrar o silêncio, o rosto sério demais.
— Nil… se você foi a última pessoa a vê-la — disse, com cuidado — não podemos falar isso para a guarda. Você a perdeu de vista justamente naquele beco maligno.

Nil assentiu, sentindo o peso daquelas palavras. Dorne respirou fundo, o olhar distante.
— Tudo está se encaixando — murmurou. — Os símbolos. Os becos. As crianças. Isso não é coincidência.

Havia urgência agora. Não apenas curiosidade. Não apenas investigação. Era preciso ir mais fundo.

Enquanto aguardavam uma brecha para entrar, Matrox afastou-se alguns passos e voltou a observar o quadro de recompensas. Seus olhos percorreram os cartazes rapidamente até algo chamar sua atenção.
— Olha isso — disse, arrancando um dos avisos.

A recompensa era modesta: dez moedas de ouro. O objetivo, simples à primeira vista — encontrar um emblema perdido. Havia o desenho do objeto… e o retrato de uma pessoa suspeita de tê-lo roubado.

Matrox dobrou o cartaz e guardou consigo.
— Tudo pode servir — murmurou.

Pouco depois, conseguiram entrar. Khor avançou à frente do grupo e se apresentou novamente, desta vez diretamente a Morim, o oficial que agora parecia ainda mais pressionado do que antes.

Do lado de fora, a cidade começava a perceber. Mais uma criança havia desaparecido. E, desta vez, eles sabiam que não estavam apenas correndo atrás de sombras.

Estavam seguindo o rastro de algo que os observava de perto demais.

O Preço de uma Criança

Morim não perdeu tempo com rodeios.
— Mais uma criança sumiu — disse, a voz pesada, como quem repete uma sentença antiga. — E isso significa mais dias difíceis para Jarvan. Mais apatia. Mais medo.

O oficial apoiou as mãos sobre a mesa, inclinando-se levemente à frente.
— A cada vinte e um dias, quatro crianças desaparecem. De locais aleatórios. — Fez uma pausa curta, amarga. — Hoje, mais uma vez, foi uma criança de Jarvan.

O silêncio que se seguiu foi denso. Dorne foi o primeiro a quebrá-lo, como quase sempre fazia quando o peso ficava grande demais.
— Bem… — disse, abrindo um meio sorriso forçado. — Parece que hoje é o dia de sorte da cidade. Quatro bravos aventureiros acabaram de chegar para resolver isso.

A piada caiu fraca no ar. Khor percebeu imediatamente: não era leveza. Era defesa. Nervosismo mascarado de humor.

Morim suspirou.
— Não sei como fizeram — disse, encarando o grupo — mas vocês foram os primeiros a trazer uma criança de volta. Vamos espalhar isso pela cidade.

Ele se virou e chamou alguns guardas.
— Espalhem aos quatro ventos: uma das crianças foi encontrada. — Endureceu o tom. — Precisamos reduzir o pavor antes que ele nos consuma.

Os guardas assentiram e saíram apressados. Dorne aproveitou o momento.
— E os pais da criança que sumiu agora? Já sabem quem são?

Morim balançou a cabeça.
— Foi tudo rápido demais. A notícia chegou, mas ainda não sabemos quem são os pais.

Ele respirou fundo novamente, o olhar distante.
— Há algo que me incomoda profundamente — continuou. — Sempre que quatro crianças desaparecem em Jarvan, nenhuma outra some aqui por um tempo. Mas, nesse intervalo, desaparecem em outros lugares. — Levantou o olhar para eles. — Sempre quatro. Em cada lugar.

A sala pareceu mais fria.
— E no dia em que uma criança retorna… — completou Morim — outra some.

Dorne franziu o cenho.
— Isso soa como… — começou.
— Uma seita — concluiu Morim. — Durante muito tempo achamos que eram sequestradores. Mas agora… não acredito mais nisso.

Dorne estendeu a mão.
— Nil, o caderno.

Nil entregou sem questionar. Dorne abriu nas páginas onde os símbolos haviam sido desenhados e virou o caderno na direção de Morim.
— Já viu algo assim?

Morim analisou com atenção, demorando-se em cada traço.
— Não reconheço nenhum deles.

Dorne fechou o caderno.
— Preciso dos endereços das outras crianças desaparecidas. As outras três casas.

Morim assentiu lentamente.
— Da que sumiu hoje ainda não temos informações. — Então abriu uma gaveta e retirou alguns cartazes. — Mas aqui estão as outras três.

Dorne pegou os avisos e percorreu os valores com os olhos. Parou por um instante e virou um deles para Matrox.
— Olha isso. — apontou. — Mil e quinhentas moedas de ouro por criança.

Matrox ergueu uma sobrancelha.
— Dinheiro para encontrar crianças?
— Muito mais dinheiro — completou Dorne, sem humor.

Ele então voltou-se para o grupo.
— E se nos dividirmos? Cada um vai até uma das casas?

Khor foi firme.
— Já está tarde. — disse. — As pessoas estarão com as portas fechadas. Com medo. Não nos receberão. — Fez uma pausa. — Precisamos dormir. Descansar. Curar feridas.

Por um breve momento, todos se lembraram. Khor ainda estava envenenado. E não mencionara isso nenhuma vez. O grupo assentiu em silêncio. Decidiram então seguir para a estalagem.

Ao chegar, informaram que ficariam todos no mesmo quarto — tanto para conseguir um desconto quanto pela segurança de estarem juntos, atentos a qualquer coisa fora do lugar. Khor pagou a primeira moeda, combinando de pagar a segunda na saída.

Já no quarto, o cansaço começou a cobrar seu preço. Nil explicou com detalhes sobre a criança que vira na rua, o toque em seu braço, o desaparecimento no beco. Mostrou novamente os símbolos, atualizando todos.
— Esses emblemas são de origem profundamente maligna — disse. — Mesmo sem reconhecê-los. Em nenhuma das línguas que conheço.

Dorne então falou de seu passado. Do massacre de seu clã. Dos mesmos símbolos gravados na memória como feridas abertas.
— A criança sumir logo após aqueles símbolos… — disse, a voz baixa — não é coisa boa.

Khor ouviu tudo em silêncio e então falou:
— Precisamos observar as casas onde esses símbolos apareceram. As paredes. Os becos. — Endureceu o olhar. — Pode haver uma ligação direta.

Ninguém discordou. Por fim, decidiram dormir. Mas o descanso era apenas físico. Porque agora sabiam: o Ciclo não estava apenas ativo.

Estava se adaptando.

Quando a Luz Vacila

Nil foi o primeiro a acordar. Para um elfo, o descanso vinha mais rápido e mais profundo do que para a maioria das raças. Quatro horas bastavam para que o corpo e a mente se recuperassem por completo. Quando abriu os olhos, o quarto ainda estava mergulhado na penumbra silenciosa da madrugada, os outros dormindo pesadamente.

Ele se levantou com cuidado e, afastando-se alguns passos, começou a traçar símbolos no ar com gestos precisos. Murmurou palavras antigas, moldando a magia com familiaridade. Aos poucos, uma pequena forma tomou consistência ao seu lado. Um rato. O familiar surgiu silencioso, atento, os olhos pequenos e vivos refletindo a pouca luz do ambiente. Nil observou-o por um instante e assentiu, satisfeito. Teria olhos onde ele não podia estar.

O dia começou a clarear pouco depois. Quando o sol finalmente se insinuou pelas frestas da estalagem, Khor já estava de pé. Vestiu sua armadura com movimentos calmos e rituais, ajustando cada correia. Sentia-se diferente daquela noite: o veneno havia sido completamente expurgado, o corpo descansado, a mente firme. Ao erguer o olhar, percebeu Nil já pronto, desperto demais para aquele horário.

Pouco a pouco, os outros também começaram a se mover. Dorne foi o primeiro a descer as escadas, esfregando as mãos.
— Vou atrás de um bom café da manhã — anunciou. — Se vamos enfrentar coisa ruim hoje, melhor não ser de estômago vazio.

Após se prepararem, todos desceram e, sem demora, partiram novamente em direção ao beco onde Nil havia visto os símbolos. Ao entrarem juntos no corredor estreito, algo estava… diferente.

Dorne franziu o cenho imediatamente.
— O silêncio não está completo — disse, atento. — Ele vai e volta.

De fato, os sons falhavam. O eco distante da cidade surgia por instantes e desaparecia logo em seguida, como se alguém estivesse abrindo e fechando uma porta invisível.
— A presença dos quatro aqui muda algo — murmurou Dorne. — A magia… parece diferente.

Ele olhou para Nil.
— Parece que está se esvaindo?

Nil concentrou-se, analisando com cuidado. Khor fechou os olhos e ativou seu Sentido Divino. O mundo ao redor se transformou em camadas de percepção espiritual. Ali, ele viu claramente o mesmo símbolo de que Nil falara antes, ainda gravado na parede.
— Está aqui — disse. — Ainda existe.

Nil confirmou com um aceno.
— Mas está instável — acrescentou. — As runas estão falhando… como luzes que piscam antes de apagar.

O brilho azul surgia e desaparecia, irregular, enfraquecido.
— Precisamos ver o que há do outro lado dessa parede — disse Khor. — A casa que encosta aqui.

Nil então explicou melhor o que havia acontecido com Dorne antes — a surdez total, o isolamento completo dentro do beco. Diante disso, não demoraram a decidir. Investigariam a casa.

Khor deu alguns passos para fora do beco. No instante em que cruzou o limiar, o silêncio absoluto caiu novamente sobre Dorne. Tudo sumiu. Som. Eco. Presença.

Dorne arregalou os olhos e tentou falar, mas não ouviu sequer a própria voz. Ainda assim, gritou, mesmo sem escutar, fazendo gestos desesperados para Khor. Khor percebeu imediatamente e voltou para dentro do beco.

O silêncio que esmagava Dorne se quebrou parcialmente. Os sons voltaram a falhar, indo e vindo como antes. Dorne respirou fundo, o olhar sério agora.
— Definitivamente — disse — algo reage à nossa presença.

E aquilo não queria ser observado.

Marcas que Observam

Khor indicou a casa à esquerda do beco, enquanto Nil se afastava alguns passos e se ajoelhava, murmurando palavras suaves. O pequeno rato familiar deslizou para fora de sua mão e correu rente ao chão, obediente, seguindo em direção à casa da direita. Nil manteve a concentração firme, atento ao limite da magia — trinta metros. Não podia avançar mais do que isso sem perder o vínculo.

Enquanto Khor, Matrox e Dorne avançavam alguns passos em direção à casa da esquerda, Nil fechou os olhos e passou a enxergar através do familiar. O rato contornou a parede, passou por um trecho de pedra escurecida pelo tempo… e então Nil sentiu um aperto imediato no peito.

Era a casa da criança que havia desaparecido na noite anterior. As janelas estavam fechadas. As portas reforçadas. Havia algo errado ali, algo que pulsava de forma semelhante aos símbolos do beco. Não era coincidência. As runas não estavam espalhadas aleatoriamente pela cidade — estavam ancoradas às crianças desaparecidas.

Nesse mesmo instante, o rato avançou mais alguns metros e entrou em outro beco. E então viu. Uma figura encapuzada estava encostada contra a parede, o corpo parcialmente oculto pelas sombras. O braço se movia com precisão ritualística, desenhando um símbolo na pedra. O gesto era treinado. Consciente. Deliberado. A figura parou subitamente. Virou o rosto na direção do rato.

Mesmo através do vínculo mágico, Nil sentiu o impacto do olhar. A pessoa percebeu a presença do familiar. Houve um gesto rápido — uma dispersão brusca de energia — e o vínculo se rompeu. O rato deixou de existir.

Nil abriu os olhos abruptamente, respirando fundo.
— Alguém está fazendo isso — disse imediatamente ao grupo. — Uma pessoa encapuzada. Eu vi. Ela estava desenhando símbolos… e percebeu o familiar.

Não houve mais discussão. Todos correram. Avançaram pelo beco, dobraram a esquina, varreram o local com o olhar. Nada. A figura havia desaparecido como fumaça.

Nil se abaixou no chão sem perder tempo. Tocou a terra, observou as marcas, as irregularidades da poeira e da pedra. Seus olhos percorreram cada detalhe com atenção treinada.
— Pegadas — disse. — Bota fina. Pé pequeno. Pode ser uma mulher… ou um homem muito magro.

Ele então ergueu o olhar para a parede. O símbolo ali era diferente. Novo. Não correspondia exatamente aos anteriores. Nil sentiu um estalo na mente.
— Eu me lembrei de algo — disse, a voz baixa. — Em um livro sobre deuses antigos… havia referência a nove símbolos. Muito antigos. Muito anteriores às religiões atuais.

Os quatro trocaram olhares tensos. Explicaram tudo uns aos outros, conectando o que cada um havia visto, sentido e lembrado. A conclusão era clara demais para ser ignorada. Precisavam olhar a casa junto àquela parede.

Bateram à porta.
— Está tudo bem aí dentro? — chamou Khor.

Após alguns segundos, uma pequena portinhola se abriu. Apenas um olho os observou.
— Vão embora — disse a voz. — Não há problema algum aqui.
— Alguém desapareceu desta casa? — insistiu Khor.

A reação foi imediata. A portinhola bateu com força.
— VÃO EMBORA! — gritou o homem lá dentro. — Não há criança desaparecida aqui e nem haverá! Estamos trancados! Ninguém vai levá-la!

O medo era evidente. Khor recuou um passo, compreendendo.
— Eles estão apavorados — murmurou. — Pelo que aconteceu ontem.

Khor e Matrox decidiram permanecer próximos à casa, montando vigia discreta. Não para vigiar os moradores — mas para protegê-los. Nil e Dorne trocaram um olhar.
— Biblioteca — disse Nil.
— Biblioteca — concordou Dorne.

Enquanto se afastavam, agora à luz do dia, perceberam algo inquietante: Jarvan parecia diferente. As ruas ainda estavam cheias, mas havia um peso novo no ar. Conversas mais baixas. Portas fechadas. Olhares desconfiados.

A cidade estava de luto…
e ainda não sabia exatamente pelo quê.

A Luz que Atravessa Paredes

O grito veio de dentro da casa. Não foi um pedido de ajuda articulado, nem um chamado claro. Foi um som bruto, rasgado pelo pânico, que atravessou a madeira da porta como uma lâmina. Khor e Matrox se entreolharam por um único instante antes de correrem. Arrombaram a entrada sem hesitar.

Dentro da casa, o ar estava pesado, carregado de algo metálico e frio. Um casal jazia caído no chão, ainda conscientes, mas desorientados, os rostos marcados pelo terror. Próximo a eles, uma terceira figura — alta, esguia — estava desacordada, o corpo estendido como se tivesse sido lançado ao chão sem cuidado.

Na parede… o símbolo.

Ele estava ali, brilhando fracamente em azul, exatamente no mesmo ponto onde, do lado de fora, haviam encontrado outro emblema. Era como se a parede não existisse para aquela marca — como se o símbolo estivesse ao mesmo tempo dentro e fora da casa, atravessando a pedra.
— Acordem — disse Khor, ajoelhando-se ao lado do casal. — O que aconteceu?

A mulher tremia. O homem levou alguns segundos para conseguir falar.
— Tinha… uma luz azul… — murmurou, com dificuldade. — Ela entrou aqui.

A mulher completou, quase em pranto:
— Levou ela… levou ela…

Khor sentiu o estômago afundar. Sem dizer mais nada, ele se levantou e saiu da casa, Matrox logo atrás. Voltaram ao beco onde o símbolo externo ainda pulsava, embora de forma instável. À medida que se aproximavam, o brilho começou a falhar. Piscava. Enfraquecia.

Khor estendeu a mão. Quando seus dedos tocaram o símbolo, não houve resistência. Não houve explosão. A runa simplesmente se desfez, como vidro quebrando no ar, dissipando-se em fragmentos de luz azul que desapareceram antes de tocar o chão. Khor ficou imóvel por um instante, encarando o espaço vazio onde a marca estivera.
— Espere — disse, a mente trabalhando rápido.

Ele retirou o medalhão e o entregou a Matrox.
— Toque o símbolo da outra parede.

Matrox obedeceu, pressionando o metal contra a runa interna. Nada aconteceu. O símbolo permaneceu intacto, pulsando suavemente. Khor deu um passo à frente. Sem o medalhão. Tocou a outra runa com a mão nua. Ela se quebrou novamente. O brilho se fragmentou e sumiu como fumaça.

Khor sentiu um arrepio percorrer o corpo.
— Parece que… — murmurou — talvez eu consiga acabar com isso.

Ele pegou o medalhão de volta, fechando-o com força na mão.
— Vá chamar os outros — disse a Matrox. — Nil e Dorne. Estão na biblioteca.

Matrox assentiu sem questionar e partiu em disparada pelas ruas. Khor voltou para dentro da casa. A família ainda estava em choque. Ele se ajoelhou novamente, falando baixo, firme, tentando ancorá-los naquele momento, naquela realidade. A criança havia sido levada.

Mas, pela primeira vez desde que tudo começara, Khor sabia que aquilo não era intocável.

E quem quer que estivesse por trás das luzes e símbolos…
agora sabia também.

O Conhecimento que Não Quer Ser Encontrado

Nil entrou na biblioteca com a familiaridade de quem respeita aquele espaço. O ambiente era amplo, silencioso, sustentado por colunas de pedra que se elevavam até um teto alto demais para ser confortavelmente iluminado. Fileiras de estantes se estendiam em corredores longos, carregando séculos de registros, mapas, tratados e histórias que a cidade preferia lembrar — e algumas que preferia esquecer.

Ele aproximou-se do balcão, onde um atendente organizava pergaminhos.
— Preciso de livros sobre deuses antigos — disse Nil, direto, sem rodeios.

O atendente ergueu o olhar lentamente, avaliando-o por um segundo a mais do que o necessário.
— Posso perguntar o motivo da busca? — questionou, com cautela.

Nil manteve a expressão neutra.
— Sou um grande estudioso do assunto.

Antes que o silêncio se assentasse, Dorne inclinou-se um pouco para frente, incapaz de conter a língua.
— É pra ajudar a encontrar as crianças desaparecidas.

O atendente parou o que estava fazendo. O olhar dele mudou.
— Os livros ficam no final da biblioteca — respondeu, após um breve instante. — Últimas estantes, ala norte.

Nil agradeceu com um aceno curto, e os dois seguiram. À medida que avançavam para o fundo da biblioteca, a luz tornava-se mais fraca, as estantes mais antigas, os corredores mais estreitos. Quando chegaram ao local indicado, perceberam imediatamente que algo estava errado. Espaços vazios.

Alguns livros haviam desaparecido. Não havia poeira acumulada suficiente para indicar abandono antigo — os volumes tinham sido retirados recentemente. Os que restavam foram examinados com cuidado. Nil folheou páginas, percorreu índices, buscou referências cruzadas. Nada.

Nenhuma menção direta a deuses antigos. Nenhum registro útil. Apenas lacunas. Quando retornaram ao balcão, o atendente os observava com atenção excessiva.
— Sugiro que não se metam com coisas que não dizem respeito a vocês — disse, a voz baixa, mas firme. — Há conhecimentos que só trazem problemas.

Nil sustentou o olhar, mas não respondeu. Foi nesse momento que Matrox surgiu entre as estantes, o passo pesado contrastando com o silêncio do local. Aproximou-se sem rodeios.
— Precisamos ir — disse, direto. — Algo aconteceu com Khor.

Nil fechou o livro que ainda tinha em mãos. Dorne sentiu um aperto no peito. Sem dizer mais nada, os três deixaram a biblioteca, carregando não respostas — mas a confirmação inquietante de que alguém estava apagando rastros.

E isso significava apenas uma coisa: Eles estavam no caminho certo.

Quando o Céu Responde

Não demorou. Matrox retornou em disparada, trazendo Nil e Dorne consigo. Os três atravessaram as ruas com urgência visível, desviando de pessoas, ignorando olhares curiosos. Quando chegaram à casa, encontraram Khor ainda ali, ajoelhado próximo à família, mantendo-os ancorados na realidade enquanto a ausência da criança pairava como um vazio impossível de preencher.

Khor levantou-se assim que os viu. Explicou tudo de uma vez só: os gritos, a luz azul, o símbolo dentro e fora da parede, a forma como ele se desfez ao toque. Falou do teste com Matrox, do medalhão, da certeza inquietante de que algo nele reagia àquelas marcas.

Nil ouviu em silêncio absoluto. Quando Khor terminou, o mago estendeu a mão.
— Posso ver o medalhão?

Khor entregou-o sem hesitar.

Nil girou o objeto entre os dedos, observando cada detalhe, cada desgaste do metal, cada linha do emblema. Seus olhos se estreitaram lentamente.
— Isso é antigo — disse por fim. — Muito antigo. Já vi referências a algo assim em livros que tratam dos mortos… de rituais ligados à comunicação com eles. Falar com os mortos não como magia direta, mas como conceito. Como ponte.

Khor então ergueu a mão e tocou novamente um dos símbolos remanescentes, à vista de todos. A runa se partiu no mesmo instante. Desfez-se no ar, fragmentando-se em luz azul antes de desaparecer por completo. Ninguém falou por alguns segundos.

A decisão veio naturalmente.
— Vamos acabar com todos — disse Khor. — Um por um.

Usando os cartazes de procurados e os registros das casas ligadas às crianças desaparecidas, o grupo começou a se mover pela cidade. Em cada local, o mesmo padrão. Símbolos escondidos nas paredes. Medo nos moradores. Silêncio nos becos.

E, um a um, os emblemas foram destruídos. Quando o último símbolo se desfez, algo diferente aconteceu. Uma luz intensa irrompeu do ponto onde a runa estava. Subiu aos céus como uma coluna viva, rasgando o ar noturno. A energia azul se elevou acima das casas, das muralhas, das torres… e então se inclinou, movendo-se em direção à capela.

Todos sentiram.
— É lá — disse Dorne, a voz baixa.

Correram. Dentro da capela, encontraram o que não deveria estar ali. Livros. Volumes antigos, espalhados sobre mesas e bancos, alguns abertos, outros empilhados de forma descuidada. Nil reconheceu imediatamente as encadernações.
— São da biblioteca — disse, já avançando.

Começou a folheá-los com rapidez, virando páginas amareladas, ignorando poeira e marcas de uso recente. De repente, parou.
— Aqui — chamou.

Apontou para uma página onde símbolos familiares estavam desenhados.
— Este é o livro. O dos nove símbolos.

Ele ergueu o olhar para os outros.
— Encontramos cinco deles até agora.

Nil respirou fundo antes de continuar.
— Esses símbolos pertencem a um ser antigo. Um ser que se alimenta de medo… e de silêncio. — Fez uma pausa. — Agora tudo faz sentido. O silêncio absoluto que Dorne sentia. O pavor constante na cidade. As crianças.

Os quatro se entreolharam.
— Cada um de nós… — começou Dorne — reage a isso de um jeito.
— Eu sinto quando estou perto — disse o anão. — Tudo fica mudo.
— Eu vi a criança antes de desaparecer — completou Nil. — Visões.

Matrox cruzou os braços, a expressão dura.
— Os números. A contagem. Sempre ligados às crianças.

Khor fechou a mão lentamente.
— E eu destruo os símbolos — disse, em voz baixa.

O peso da revelação se assentou sobre o grupo. Não era coincidência. Não era acaso. Eles não haviam sido reunidos por sorte. Cada um era uma resposta diferente ao mesmo horror.

E agora sabiam: o inimigo não apenas observava.

Estava reagindo.

A Escada que Não Foi Feita para Retorno

Na última sala da capela, quase escondida atrás de um altar secundário e de estantes deslocadas às pressas, havia uma passagem que não combinava com o resto do templo. Um alçapão de pedra.

Abaixo dele, um porão fechado por grades antigas levava a algo muito mais profundo. Aquela estrutura não pertencia à fé que hoje ocupava o lugar. Era anterior. Mais velha. Carregava a mesma sensação que Nil sentira ao despertar naquele porão distante, depois de tocar o prisma.

Ele reconheceu na hora.
— Isso… — murmurou, mas não terminou a frase.

Khor empurrou a grade com esforço. O rangido foi baixo demais, quase contido, como se o próprio metal temesse fazer barulho. O caminho se abriu, revelando uma escadaria circular de pedra. Antiga. Muito antiga.

As pedras eram gastas, polidas por algo que desceu ali muitas vezes ao longo de séculos. A escada girava para baixo em um espiral que parecia não ter fim, desaparecendo na escuridão.

Eles começaram a descer. Nenhuma palavra foi dita. Cada passo era calculado. Cada respiração, controlada. A luz das tochas os acompanhava, mas parecia menor à medida que avançavam, como se fosse lentamente engolida pela profundidade.

Cada passo parecia afastá-los não apenas da superfície, mas da possibilidade de retorno ao que consideravam normal.

Quarenta minutos. Quarenta minutos de descida contínua. O tempo perdeu significado ali embaixo. A escada não oferecia variação, nem descanso, nem referência. Apenas o movimento constante, circular, hipnótico. O silêncio era pesado, não absoluto como nos becos, mas denso, carregado de expectativa.

Quando finalmente chegaram ao fim, encontraram uma porta. Grande. Espessa. Feita de pedra reforçada com metal escurecido pelo tempo. Cravados nela estavam os nove símbolos. Não pintados. Não desenhados. Entalhados.

Cada um ocupando seu próprio espaço, dispostos com precisão ritualística. O brilho azul não pulsava ali — emanava. Era constante, frio, profundo. A sensação que irradiava daquela porta era quase física: maligna, opressora, sufocante. Algo ali embaixo sabia que estava sendo observado.

Eles pararam diante dela.

Khor ajustou o escudo.
Dorne firmou o martelo com as duas mãos.
Matrox respirou fundo, o corpo preparado para a violência.
Nil fechou o livro e o prendeu junto ao peito, a mente em alerta total.

Não havia mais dúvida. Aquela porta não guardava respostas. Guardava consequências.

E todos sabiam:
o que quer que estivesse do outro lado…
não fora feito para ser enfrentado.

Mas eles estavam ali.

E não dariam meia-volta.